sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Orgulho Cristão? Eu, hem!

Neemias Félix 

Preocupa-me que (bons) cristãos estejam dizendo que têm orgulho disso ou daquilo, principalmente quando se referem à sua religião ou denominação. 

Ainda que o dicionário registre acepções como “sentimento de prazer sobre algo que é visto como alto, honrável, creditável de valor e honra”, também é verdade que registra “sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba, imodéstia”, ao lado de “atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; vaidade, insolência”. 

 A dificuldade (ou impossibilidade) da desambiguação dos conceitos consiste, portanto, em perscrutar o mais íntimo do ser humano para conhecer exatamente o que diferencia uma disposição de outra, e isso é uma empreitada que nem mesmo a própria pessoa que abriga esse sentimento, pela sua dubiedade, é capaz de realizar. Jeremias 17.9 retrata bem as entranhas da motivação humana: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”. 

Além de observar a ufania dos adesivos dos carros, vi, dias atrás, num dos sites de um famoso pastor televisivo, a palavra orgulho correndo solta em dezenas de comentários postados, a propósito de uma distinção honorífica que aquele pregador recebera na Câmara de Deputados, em Brasília. Sem questionar o mérito da outorga da honraria, que considero até justa, postei também meu comentário destoante, lembrando aos mais exaltados que um cristão do primeiro século, homônimo do homenageado, ao lado do apóstolo Paulo, recebera uma saraivada de açoites no calabouço, ao invés de comenda ou medalha. 

Na Bíblia há inúmeras menções ao orgulho, sempre com valor negativo: “O orgulhoso de coração levanta contendas, mas o que confia no Senhor prosperará ((Pv 28.25)”; “Os olhos altivos, o coração orgulhoso e a lavoura dos ímpios é pecado (Pv 21.4)”; “A soberba precede a destruição, e a altivez do espírito precede a queda (Pv 16.18)”; “Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado (Mt 23:12)”. 

Richard Baxter chama o orgulho de “o pecado do diabo” e “o primogênito do inferno”. A. W. Tozer nos aconselha a sondar com diligência o nosso íntimo; “mesmo se não acharmos nenhum resquício de orgulho”, diz ele, “ainda devemos duvidar”. 

Certa vez João Batista, exemplo de humildade, foi cercado por líderes judaicos que se gabavam de sua raça e religião. O orgulho etnorreligioso deles irrompeu violento. Mais violenta, porém, foi a resposta de João: “E não vos orgulheis de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão (Lc 3.8)”. Cristãos do primeiro século, que eram muito melhores do que nós, nunca inflaram o peito para dizer “temos orgulho de ser cristãos”. Ao contrário, em Antioquia, eles “foram chamados cristãos” (At 11.26). Certamente porque as pessoas viram que eles tinham estado com Cristo, porque eram discípulos dEle. Mais que professadores de Suas doutrinas ou recitadores de Seus ensinamentos, os discípulos eram identificados com Jesus, inclusive no sofrimento; eram Seus imitadores. 

Não vejo qualquer vantagem em sentir orgulho pelo país ou cidade em que alguém nasceu, pelo time de futebol, pela cor da pele ou pela religião que se professa. Aquele que usa a palavra orgulho para expressar o sentimento de prazer a respeito de qualquer coisa, ou, ainda, dessa ou daquela religião/denominação, deveria, pelo menos, usar outras palavras, como, por exemplo, “tenho alegria de ser ou de fazer isso ou aquilo”. 

Melhor ainda seria seguir o exemplo de Paulo, que nos coloca em nosso devido lugar com esta sentença: “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor (II Co 10.17)”.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Clérigo

Neemias Félix


Fechado em sacros paramentos sacos
lá vem o clérigo
Na tonsura, o súcio, o circo
- cisão que sobe vinda do prepúcio?
único heliponto da lisura?
De roupa escura
lá vem o cura
Já falou latim ao povo tartamudo, mudo
e a  voz piedosa dosa a intenção maldosa
Quem TV no colarinho em V nada vê
O clérigo
tem mitra, báculo e barrete
e canta, é claro, que em falsete
É cleptomente
e rouba o sacerdócio de todos os crentes
O clérigo não se entrega, intriga e migra
reforma, transmuda e, num instante
renasce em berço e rito protestante
lembrando priscas eras e filactérias
na língua em pano, em fato domingueiro
velha batina, hábito romano
O clero agora em tom tão evangélico
adora a distinção e os privilégios
ostenta títulos e engendra sortilégios
Enquanto o Mestre se despe, o clérigo veste mais
se enfuna e inflama em vestes clericais
O microfone em riste é poder e assalto
e ocupa sempre lugares mais altos
O clérigo é mais que ativo, é corporativo
Ameaçado, saca este penhor
não alce o braço contra o ungido do Senhor
A tradição que trai sempre insepulta
o odre novo e fresco catapulta
sufoca e acalma a torpe turbamulta
Um lema tem e não faz isso a esmo
que é mudar sempre pra ficar no mesmo

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Conscientização ou Conversão?


Neemias Félix

Conscientização já era palavra da moda em 1976, quando comecei a lecionar. “É preciso haver conscientização”, “Esses alunos precisam se conscientizar...“ eram frases ouvidas aqui e ali com muita frequência na escola.

Não sei se os colegas tinham consciência de que a palavra possuía forte conotação política e psicanalítica. Àquela época, mais por reação contra a ditadura reinante do que por ideologia, era natural que “todo mundo ficasse meio à esquerda”, como diria um amigo meu, ledor, reledor e pouco entendedor, como eu, do Das Kapital, de Marx. Suspeito que pensavam mesmo mais na acepção comum da palavra.

Coube à Arlêne Campos (eta Arlêne!) lançar dúvida sobre o abuso da palavrinha enjoada. Certa ocasião, com a inteligente ironia que lhe é peculiar, depois de um eloquente e preguiçoso meneio de cabeça, dois resmungos e a fleuma quase chinesa dos sábios, sentenciou: “Huumm, se conscientização valesse, médico não fumava nem bebia...”

Guardei a reflexão no coração. Anos mais tarde, já frequentador assíduo das reuniões do A.A., o relato de seu co-fundador Bill W. abriu uma clareira no cipoal do meu entendimento. Num de seus livros, esse homem que era um alcoólico crônico, falido em todas as áreas da vida, com inúmeras internações hospitalares, conta a sua experiência sobrenatural ocorrida no dia em que parou de beber. Bill, que era ateu, já tinha lido “Variedades da experiência religiosa”, do psicólogo e filósofo William James. Segundo James, as experiências espirituais poderiam ter realidade objetiva, quase do mesmo modo como as dádivas do céu poderiam transformar as pessoas. E foi assim que o co-fundador do A.A., numa depressão profunda, viu esmagada a sua orgulhosa obstinação. De repente, ele se encontrou exclamando no quarto do hospital: “Se existe um Deus, que ele se manifeste! Estou pronto para fazer qualquer coisa, qualquer coisa!”

Bill continua, na página 57 do Livro “O A.A. completa a maioridade”:

“De repente, o quarto se encheu de uma forte luz. Mergulhei-me num êxtase que não há palavras para descrever. Pareceu-me, com os olhos da minha mente, que eu estava numa montanha e que soprava um vento, não de ar, mas de espírito. E aí tive a sensação de que era um homem livre. Lentamente o êxtase passou. Eu estava na cama, mas agora por instantes me encontrava em outro mundo, um mundo novo de conscientização [grifo meu]. Ao meu redor e dentro de mim, havia uma maravilhosa sensação de presença, e pensei comigo mesmo: ‘Então, esse é o Deus dos pregadores!’ Uma grande paz tomou conta de mim e pensei: ‘Não importa quão erradas as coisas pareçam ser, elas ainda são certas. As coisas são certas com Deus e Seu mundo’.”

Ouvir essa experiência da boca de uma pessoa cristã é algo comum. Podemos até correr o risco de banalizá-la a ponto de tirar-lhe o devido valor.  Ouvi-la de um ateu, porém, deve deixar o mais cético dos mortais, no mínimo, desconfortado. Principalmente se considerarmos que isso aconteceu no fim de 1934 e que Bill W. morreu em 1971, sem ingerir uma única gota de álcool em 36 anos.

Não se pode ignorar o fato de que educação e disciplina podem fazer muito na formação moral do ser humano e servir como um freio dos seus instintos naturais e compulsões. Há situações, porém, em que é preciso quedar-se numa total rendição ao Intangível e dar o imprescindível salto ao transcendente, sem o qual serão baldados todos os esforços dos reles mortais.

Quem se der ao trabalho, penoso para alguns, de ler, no Evangelho de João, o famoso diálogo com Nicodemos, membro do Sinédrio, vai ouvir Jesus falando em novo nascimento e na ação misteriosa e imperscrutável do Espírito Santo: “O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (João 3.8).

Quem já leu sobre a transformação do apóstolo Paulo no livro de Atos sabe do que estou falando. Impossível o culto assecla da seita mais renitente do judaísmo, o perseguidor dos cristãos sofrer uma transformação tão radical a ponto de morrer por aquele a quem perseguia apenas como resultado de conscientização. Tal metamorfose não pode ser fruto de uma simples mudança de partido, de religião ou de denominação. Aliás, Bill W., para não transformar o A.A. num refém a serviço de agremiações religiosas, nunca se filiou a nenhuma delas.

A amiga e colega Arlêne estava coberta de razão.  Modestamente espero ter sintetizado o complemento do seu pensamento nesta exposição. “Há muito mais entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”, já dizia Shakespeare. A frase é batida, mas não deixa de ser pertinente, oportuna e categórica.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Quem Não Sabe Orar... Perde o Almoço

Neemias Félix

Crentino Evangelista Iglésias é um nome bem sugestivo e apropriado para quem se esmerou na arte de enganar os incautos evangélicos que o recebiam em casa, geralmente à hora das refeições. De casa em casa, filando almoços e jantares, há muito não trabalhava. Usava um estratagema bem simples: apresentava-se como evangélico, no tempo em que essa palavra evocava gente de bem, sem vícios, de bom coração. Era capaz de citar a igreja a que pertencia, com endereço, número de membros, pastor e, se necessário, até CNPJ.

Seu “ministério itinerante” terminou no dia em que encontrou um casal de crentes muito simples, porém zelosos e consagrados. Como de costume, disse o nome da igreja a que pertencia, com todos os detalhes tão bem memorizados que, a princípio impressionou os dois idosos. Conversa vai, conversa vem, finalmente o esperado convite para almoçar, já que Crentino havia informado que viajaria logo após o almoço e não tinha muito tempo para procurar um restaurante no centro da cidade, um pouco longe da casa de suas prováveis novas vítimas.

Tudo parecia ir muito bem. Comida quentinha na mesa, Crentino salivava, lambia os beiços, ávido para abocanhar as saborosas iguarias à sua frente. Até que a voz do velhinho se levantou firme, mais pela reverência santa do ancião do que pela qualidade física intrínseca:

-- Já que o irmão nos dá o prazer de sua presença, não se furtará, certamente, de dar graças pelo alimento que vamos receber das mãos do Senhor...

-- Dar... gra-gra... O que disse, irmão?

-- Ora, irmão Crentino, não vá dizer que o senhor, evangélico que é, não tem o hábito de orar antes das refeições.

-- Ah...hã.. sim... rezar... quer dizer, orar... né? Entendi...

“E essa, agora” – pensava o farsante, tentando imaginar uma saída para aquela situação que nunca acontecera antes.  O casal fechara os olhos, as frontes curvadas piedosa e serenamente aguardavam a palavra do convidado. O silêncio, que a princípio parecia solene e reverente, foi-se prolongando até o constrangimento. Gotas de suor começam a aparecer na testa larga e reluzente do conviva. As mãos crispadas parecem implorar uma escapadela, um subterfúgio, por mais miserável que seja. Nada!

Por fim, a revelação da impostura, explodida nos enganosos lábios blasfemos:

-- Ô diacho! Não é que eu esqueci as palavras da danada da reza!...

Foi o último almoço de Crentino. E o fim da carreira do salafrário.



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Sonho e a Visitação

Neemias Félix

“Quem não sonha morre.”

Também já disse essa frase várias vezes. Uma delas quatro anos atrás quando ousei dar uma palestra “motivacional” para alunos adultos de um curso noturno. Acho que me empolguei com as constantes afirmações dos neurolinguistas, que vivem a dar conselhos aqui e ali e, é claro, ganhar dinheiro para falar sobre tudo aquilo que as pessoas já sabem, gostam de ouvir, não põem nada em prática e continuam atrás da última novidade em termos de reprogramação mental. Empolgam-se por um momento, para uma semana depois se esquecerem de tudo que ouviram, e... até a próxima palestra.

Mas o assunto não é esse.  É este: sonhar, não como manifestação vaticinante ou profética, mas no sentido aqui de desejar, almejar, aspirar à realização de alguma coisa que está lá bem no fundo, no âmago do ser, é fundamental assim na nossa vida?

No que concerne à profissão e a todos os objetivos que queremos atingir neste mundo, debaixo do sol, sim. A questão aqui, que a minha cabeça de temperamento melancólico insiste em levantar, porém, não está circunscrita ao debaixo, mas ao acima do sol.

Dias atrás, meditabundo que estava, com a cabeça enfiada nessas lucubrações noturnas, como sói, aliás, aos melancólicos de muito meditar e pouco realizar, comecei a investigar os sonhos de personagens bíblicos famosos.  Que sonhos tiveram essas figuras que realizaram tão grandes portentos para atingir seus mais altos e sublimes objetivos? Tive uma surpresa! A resposta seca e simples é... nenhuns!

Comecemos por Abraão, o Pai da Fé. Com que sonhava esse homem quando estava em Ur, na Caldeia, antes de ser quase arrancado por Iavé e mandado para Canaã? Parece-me que... com nada!

Andemos um pouco mais e vamos encontrar Moisés. Colocado num cesto betumado para escapar à ira do faraó, ele acaba se transformando no príncipe do Egito. Mais tarde vamos vê-lo abandonando o palácio real. Aos quarenta, mata um egípcio e esconde o seu corpo na areia para defender um escravo. Depois, passa mais quarenta anos nas plagas montanhosas de Midiã. Que planos, que projetos tinha esse homem? Libertar o povo de Israel do jugo do Faraó? Nunca! Tanto é verdade que Deus teve de aparecer para ele numa sarça ardente e praticamente empurrá-lo, já aos oitenta anos,  para a grande missão que veio a realizar mais tarde.

Querem mais? Que sonhos tinha Davi? Não me venham dizer que o menino ruivo , filho de Jessé, vivia pelas campinas, absorto em seus pensamentos, sonhando ardentemente ser rei de Israel. E Isaías, o grande profeta? Literalmente, no templo, contemplava. Mas isso era no Velho Testamento, dir-me-ão alguns. Adentremos então a casa de Maria. Sonhava ela ser a mãe do Salvador? Não me parece. Quais os sonhos dos apóstolos e dos discípulos? Pedro e André pescavam tranquilamente, Mateus coletava impostos, Lucas diagnosticava. Até que apareceu Jesus em suas vidas. A ordem do Mestre para eles não era “sonhem”, mas, simplesmente, “sigam-me”.

Quando Jesus morre, todos voltam à pacata vidinha de homens comuns, sem grandes projetos. Parecem pensar: “É, tudo foi muito bom, maravilhoso, lindo, mas... alguém precisa trabalhar nessa família.” Que sonhos, que planos tinham esses homens que, na ressurreição, ainda perguntavam, meio abobalhados: “O Senhor vai restaurar o reino de Israel nesse meio-tempo?” E o interessante é que Jesus não mandou que se sentassem e burocraticamente planejassem os rumos da incipiente igreja primitiva. Nos dias de hoje e no lugar deles, talvez disséssemos: “Deixa conosco, Senhor. Vamos formar várias comissões, todo mundo planejando dentro de um cronograma rígido de trabalho. Criaremos departamentos, ministérios, nomearemos líderes e responsáveis e atingiremos tais e tais metas em tal e tal tempo...”

 Numa desprogramação absurda, contrária ao afã de fazer e realizar, Jesus usa palavras como esperar, ficar, não sair, até que fossem revestidos de poder. É Ele quem sonha, quem faz os planos, quem manda; os apóstolos apenas obedecem.

Termino com Paulo. Além de perseguir e levar presos os cristãos e cumprir farisaicamente a lei de Moisés, com que sonhava Paulo? Com nada.  É aí que ele vê o quanto Deus pode ser violento para realizar os Seus sonhos, a ponto de fazê-lo cair no chão da via e da alma. Nenhum plano, nenhum projeto dele, Paulo. No lugar deles, uma dúvida santa e fundamental: “Senhor, que queres que eu faça?”

Para quem quer viver acima do sol, não há sonhos, planos e projetos. O sonho, nesse caso, é menos importante do que a visitação, a epifania. Sim, vale mais a visitação do que o sonho. Bem diz e bendiz-nos o escritor de Provérbios: “Muitos são os planos do coração do homem, mas é o propósito do Senhor que permanece (Pv 19.21).”

Nessa altura desta, digamos, mais divagação do que reflexão, também me questionei: Devemos então abolir o sonho, o projeto, o planejamento? Não seria seguir a ideia inconsequente do “deixa a vida me levar” do compositor popular? A resposta é paradoxal: sim, desde que Vida esteja assim, com inicial maiúscula.

Se, pela nossa fraqueza, não soubermos ouvir a voz de Deus e tivermos de sonhar, que sonhemos os sonhos mais próximos dos Seus sonhos. O poderoso segredo dos homens e mulheres que Deus tem usado ao longo dos séculos não parece ser a habilidade de sonhar ou de fazer planos e projetos, mas a disposição, ainda que tímida às vezes, de obedecer.  A Ele, é claro.
                                                                                  

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Última Notícia do JN (Jornal Narcotal)

Depois de rasgar a própria Constituição Brasileira (que agora passa a chamar-se Carta Mínima), primeiro por legislar pelo Congresso Nacional, segundo por instituir a união estável gay e terceiro por usurpar o lugar Deus, criando a excrescência do terceiro sexo, o STF, que também botou na rua o bandido e assassino Cesare Battisti, decidiu autorizar as marchas pela liberação da maconha.
Num futuro muito breve, o diabo, que já anda assaz sorridente com todos esses presentes que recebeu, aguarda as seguintes decisões:

- Liberação das marchas pela legalização da cocaína, do crack, do LSD, do ecstasy, do óxi e similares.

-Legalização da profissão de narcotraficante, de traficante de crianças e de mulheres.

- Legalização da pedofilia e necrofilia (sexo com cadáveres).

-Legalização do incesto (sexo entre parentes, como por exemplo, entre irmão e irmã, pai e filha, mãe e filho, etc.). O estupro também estará liberado, desde que não seja precedido de assédio moral, este sim, um crime gravíssimo que deve ser punido severamente.

- Legalização do bestialismo ou zooerastia (sexo com animais). Afinal, tudo é uma questão de “opção sexual”, enfim, nada demais...

- Legalização da nobre profissão de prostituta e de garoto e garota de programa, com direito a carteira assinada, fundo de garantia, aposentadoria, etc.

- Legalização do aborto. Afinal, um ser tão minúsculo não tem importância nenhuma, é apenas um detalhe.

- A decretação natural e definitiva de que o mal não será mais mal e sim bem, sendo este último o verdadeiro mal. Aliás, essa história de mal sempre foi apenas uma invenção desses cristãos fanáticos e fundamentalistas que enxergam pecado em tudo.

Os doutos jurisconsultos serão, finalmente, alvo do lamento e vaticínio do profeta Isaías: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!”

Depois disso tudo, só faltará mesmo a chuva de saraiva e enxofre, como em Sodoma e Gomorra!...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Palavras e Pedreiros Também Derrubam

Acreditem, palavras derrubam a gente. E não digo isso apenas figuradamente, embora um pedreiro semi-analfabeto já tenha me derrubado com uma delas, uns trinta anos atrás. Daquela vez ele me deu um trompaço violento com o feminino de jabuti. Numa conversa sobre femininos pouco usuais, recebi uma lição dolorosa, quando ele me ensinou:

--Jabuti tem feminino, sim, senhor. E é jabota. Nada desse negócio de epiceno que o senhor falou...

Só não fiquei mais envergonhado porque, numa crônica, Rubem Braga revela que o próprio Aurélio não conhecia arará, feminino de cupim, que está registrado no seu próprio dicionário.

A outra quase queda aconteceu algum tempo depois, quando estava terminando a construção da minha casa. A história é a seguinte:

Vendo meu pedreiro encolhido embaixo da pia da cozinha fazendo uns retoques finais e sabendo que ele era um sujeito curioso, apesar das pouquíssimas letras, resolvi instigá-lo com o seguinte comentário:

-- O espaço está um tanto exíguo aí, não é companheiro?

-- Exíguo? Que negócio é esse? Perguntou ele arfando e esticando o beiço, com olhar comprido de visível curiosidade.

Expliquei-lhe então que a palavra significava apertado, acanhado, estreito.
O sobrolho dele girava de um lado a outro enquanto resmungava entre dentes:

--Exíguo, hem... Que troço mais estranho.

O resultado da conversa veio dias depois. Aproveitando a presença do meu cunhado e de um amigo que haviam chegado da Bahia, resolvi instalar uma pesada caixa d’água numa cruzeta previamente construída pelo pedreiro a cinco metros de altura. Eu tinha feito uma espécie de estaleiro com degraus de madeira usada para facilitar a operação, mas subir a caixa de amianto era uma tarefa difícil, mesmo para quatro homens, por causa da estreiteza dos degraus. O pedreiro mal se equilibrava nas laterais.

Força daqui, força dali, lá ia a caixa subindo. Nós quatro impávamos, com o tremendo esforço que fazíamos. O barulho da respiração ofegante causava um sopra e puxa esquisito que beirava a ânsia resfolegante de um cavalo cansado. Quando a caixa chegou ao penúltimo degrau do estaleiro, com todo mundo suando às bicas, meu pedreiro nos interrompe, arquejante:

-- Não dá para subir mais! Não vamos conseguir!

Meu cunhado, nervoso, engole um palavrão e grita, incrédulo:

-- Como não dá? Dá, sim, já chegamos até aqui, vamos terminar, ora essa!

O pedreiro insiste, quase sufocado:

--- Já disse que não dá! Não podemos subir a caixa até o último degrau!

-- Mas por quê! Por quê??? Grita meu cunhado, irritado.

-- Por que o espaço aqui está muito exíguo! Diz o pedreiro sublinhando cada fonema da palavra.

-- Hã?! Hã?! Repete perplexo meu cunhado, com o olhar abobalhado e quase caindo do estaleiro.

É. Certas palavras ditas por certas pessoas podem derrubar. Literalmente.

domingo, 1 de maio de 2011

Palavras que enganam

Neemias Félix

Com a frase “O meu governo está diuturnamente, e até noturnamente, atento a todas as pressões inflacionárias...”, dita de maneira jocosa, a presidente Dilma revelou uma  impropriedade de termo e uma  confusão que a maioria das pessoas faz com o sentido da palavra diuturno. Essa palavra, que vem do latim diuturnus, nada tem a ver com dia  e significa de longa duração, que vive muito tempo. Por causa dessa consonância, é muito comum alguém dizer “Estou trabalhando diuturnamente...”, querendo dizer “Estou trabalhando dia a dia, ou dia após dia para...”.

O mesmo equívoco é cometido quando a pessoa usa a palavra jovial para descrever alguém que tem disposição ou atitude de jovem. Talvez porque o jovem seja, não raras vezes, jovial. Muitos pensam que essas palavras têm o mesmo radical por causa da semelhança de sons, no entanto, a primeira vem do francês jovial, que por sua vez, vem do latim jovialis, que significa alegre, brincalhão. Jovem vem de juvenis, que nada tem a ver com jovial e sim com juvenil, juventude.

Outras confusões:
Usar pasmo em lugar de pasmado.  A primeira é substantivo; a segunda, adjetivo. Assim, se eu estou espantado com alguma coisa, eu fico pasmado e não pasmo; pasmo significa espanto, assombro, portanto eu só posso ficar cheio de pasmo.
Penalizado em lugar de punido. Entre os profissionais ligados ao direito há rejeição em relação à primeira. Penalizado quer dizer condoído, triste, pesaroso; punido é o que se puniu, o apenado.
Eminente em lugar de iminente. A primeira quer dizer alto, elevado; a segunda, que ameaça acontecer, próximo. Ex.: O eminente senador corre um perigo iminente.
Meretíssimo em lugar de meritíssimo. O correto é meritíssimo, já que a palavra deriva de mérito, assim como eletricista deriva de elétrico.
De encontro a em lugar de ao encontro de. Ex.: O carro foi de encontro ao muro, mas a mensagem veio ao encontro de minhas necessidades. Aliás, se vier de encontro às minhas necessidades, será exatamente contrária a elas...

Para evitar os enganos acima, nada melhor do que 1) perguntar a quem sabe mais, e 2) consultar uma boa gramática ou um bom dicionário. Ninguém é obrigado a saber tudo, o que se pode fazer, portanto, é travar uma luta cotidiana (esta é a palavra que a presidente deveria ter usado) e fazer um esforço ingente, para errar cada vez menos.

Quando estava na ativa, sempre havia alguém que, mais fã do que aluno, gostava de me animar e dizer: “Puxa, professor, quanta coisa você sabe!” Ao que, humildemente, eu respondia: “Meu querido, eu fico impressionado é com um monte de coisas que ainda não sei!”

Aliás, parece que certo “filosofinho” grego já disse algo parecido, não?

domingo, 10 de abril de 2011

Pode-se discutir religião?

Neemias Félix

Fico preocupado com certas afirmações que, de tão batidas ou pisadas, acabam se tornando, com o tempo, axiomas indiscutíveis e ganhando fumos de verdades absolutas. Ai de quem se atreve a questioná-las, muito menos contestá-las. Uma delas é a que diz que não se deve discutir futebol, política e religião.

Embora nunca tenha calçado uma chuteira, me filiado a nenhum partido político ou me formado em Teologia, tenho uma veia apologética pulsante e ouso contestar com veemência a máxima trifaciada mencionada acima. Todos os três assuntos podem ser discutidos, desde que haja respeito e cordialidade entre os debatedores. Atenho-me, por ora, a considerar apenas a discussão sobre a religião.

Como cristão, não posso esquecer que Jesus, aos doze anos, desprendeu-se dos pais e gastou tempo e argumentos com os doutores da lei, suplantando-os com sua sabedoria. O mesmo Jesus protagonizou, em várias ocasiões, debates acalorados com os fariseus, representantes de uma das facções mais fortes do judaísmo, e, numa delas, chegou a chamá-los de hipócritas e sepulcros caiados.  Antes de subir ao céu, ele ordena aos discípulos que preguem o Evangelho e ensinem. Ora, como é possível pregar e ensinar sem tocar na fé professada pelos interlocutores, enfim, sem “discutir religião”?

A Bíblia registra Estêvão discutindo apaixonadamente com os seus  próprios algozes antes de morrer apedrejado e mostra as várias discussões travadas por Paulo nas sinagogas judaicas. Usando uma palavra mais incisiva, diz que Paulo “disputava” nas ruas e nas praças com seus oponentes. No famoso discurso do areópago de Atenas, o apóstolo discorre sobre os fundamentos da fé cristã com argumentos bem conhecidos da dialética grega. Finalmente, em sua primeira carta, é Pedro quem nos estimula a estar sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós.

Como arrazoar sem confrontar? Como argumentar sem cotejar? Como cotejar sem comparar? E como fazer todas essas coisas sem discutir?

Discutir é imprescindível para se chegar a uma conclusão, para aclarar controvérsias e espancar dúvidas, para o convencimento, para a oportunidade de mudança de ideia, de opinião. Obstar a possibilidade de discutir qualquer assunto, por mais melindroso que seja, com o subterfúgio de que se deve “respeitar a religião dos outros”, é sufocar no ser humano a faculdade que mais o distingue dos seres brutos: o alvedrio, a sua capacidade de escolha e decisão. Foi exatamente essa a porta que fez a humanidade enfurnar-se no terrível obscurantismo da Idade das Trevas, nos inextricáveis e sombrios labirintos da Inquisição.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Ditadura do Corpo e Seus Efeitos

Neemias Félix

Creio que foi na década de 1980 que se instalou ou talvez recrudesceu a ditadura do corpo no País. De lá para cá, nunca se viu tanta preocupação com esse – muitos esquecem – invólucro da alma humana.

É possível que alguém use a máxima de Juvenal – mens sana in corpore sano - para justificar essa febre que, aliás, está intimamente ligada à sua irmã gêmea – a febre da imagem. Mas quem usa a citação do poeta romano para justificar a correria louca pela perfeição física, parece esquecer que, na sentença tão batida, mens aparece antes de corpore, o que deve sugerir que os cuidados com a mente devem ter precedência sobre a preocupação com o corpo. Esses body worshippers (adoradores do corpo), no entanto, invertem a ordem de importância dos elementos da frase, achando talvez que uma mente sã seja a consequência natural de um corpo malhado.

Os efeitos dessa distorção afetam várias áreas da atividade humana. Para ficar em uma só, basta que nos detenhamos nesta: a arte, de modo geral.

Nas telenovelas há uma renovação contínua de rostos jovens e bonitos e corpos sarados, numa sucessão alucinante. Na música, não raras vezes, a coreografia e o mover do uropígio em requebros sensuais substituem a beleza e técnica vocais. Nas letras, uma festa de banalidade e vaziez. Se nada têm a dizer no que concerne ao conteúdo poético e criativo, no que tange à sensualidade gratuita e deslavada, são capazes de excitar desde blocos de gelo a estátuas. Isso quando não caem na vulgaridade da pornografia e da pornofonia desavergonhadas.

Descobre-se nos autores uma capacidade ao mesmo tempo mágica e química de produção. Mágica por produzirem nada de nada; química por transformarem qualquer material em excremento. Como, porém, um tolo sempre encontra outro que o admira, há sempre ouvidos fiéis dispostos a consumir cacofagicamente todo esse lixo produzido. Pior: pagar por ele, enriquecer seus autores e fomentar a indústria de empobrecimento cultural. Faz lembrar o famoso FEBEAPÁ, sigla criada pelo jornalista e compositor Stanislau Ponte Preta para designar o “Festival de Besteiras que Assola o País”.

Na comunicação, principalmente dos jovens e adolescentes, nunca se viu algo tão primitivo. Se pegam uma maquininha eletrônica, como um celular, por exemplo, são mestres em fuçar e descobrir recursos complexos e funções inimagináveis com as pontas dos dígitos. Falam em bytes, pixels, chips, ipods, tablets e quejandos com a gigacompetência de um PHD. Na hora de articular uma simples frase com sujeito, predicado e complemento, com alguma coerência, perdem-se num emaranhado de “pô”, “né?”, “massa”, “caô” e similares. Comunicam-se usando um tartamudear primitivo, com orações quebradas, inconclusas e pensamentos suspensos, o que nos obriga a malabarismos divinatórios para descobrir o que querem dizer.

Nada contra o exercício físico saudável e a preocupação com um corpo hígido e bem cuidado. A sofreguidão de um “sarado” pelo modelo exterior inatingível, entretanto, pode esconder uma mente do tamanho de um grão de arroz ou de um chip e a profundidade de uma casca de lima. Fosse qual fosse a intenção de Juvenal ao produzir a célebre expressão transformada em máxima inquestionável, certamente essa não era a de estimular a forma perfeita num boneco obtuso e descerebrado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Céu É um Péssimo Lugar

Neemias Félix

É interessante como o ser humano é contraditório em assuntos relacionados com a eternidade.

Tenho conversado com pessoas para as quais a idéia de Deus, eternidade, céu e inferno passa de largo, é algo tão abstrato, tão fantasioso como os contos de fada. Outras preferem viver e agir com uma auto-suficiência espantosa, guiadas pelos seus conceitos particulares sobre bem e mal, uma justiça própria inconsistente diante da mais simples análise, na contramão de qualquer senso comum de ética e moral.

Outras mais, em atitude mais grave, perpetram os mais terríveis crimes, corrompem e são corrompidas, blasfemam, zombam dos cristãos porque estes oram, louvam, adoram, lêem a Bíblia, reúnem-se com outros irmãos e tentam, com a ajuda do Criador, levar uma vida reta, estar mais próximos de Deus. Para aqueles, os cristãos são muito ingênuos, românticos, carolas, quando não ignorantes, alienados pelo “ópio do povo”, que é a “religião”.

A maioria delas, entretanto, por incrível que pareça, sempre pensa numa outra vida mais confortável que esta, com um Deus amoroso e longânimo que de alguma forma vai acolhê-las num “bom lugar”, o que significa que, a seu modo, elas pensam no céu, mesmo que de forma vaga e nebulosa. E são exigentes: “Como pode um Deus, que é amor, enviar alguém para o inferno? Isso seria uma injustiça, uma contradição.”

E é exatamente nisso que reside a maior contradição, não de Deus, mas dessas pessoas. Se pensarmos no reino do céu e de Deus como algo que começa no coração do ser humano e, portanto, aqui nesta vida, é fácil presumir que o céu é, ressalvadas as devidas proporções, um prolongamento da vida que levamos aqui. Noutras palavras: a vida eterna, para o cristão, começa aqui.

Por isso, o cristão verdadeiro não terá nenhum problema de “adaptação” na eternidade do céu, já que começa a vivê-lo aqui nesta dimensão. Para os que já estão sem essa intimidade com Deus e Seu modus vivendi,  será muito difícil e até constrangedor viver no céu. Ficarão, na certa, desconfortáveis, sem lugar. Por essa razão é que Deus, justiça seja feita, não manda ninguém para o inferno. As pessoas é que escolhem viver lá. Afinal é o prolongamento da vida que levaram aqui neste mundo. Nunca poderão reclamar de nada, porque sempre puseram Deus de lado. Nunca quiseram que Ele fizesse parte de sua vida, de seus planos, como farão isso no céu? Nunca tiveram intimidade com Ele por meio da oração, como serão seus amigos? Nunca o louvaram aqui, como o louvarão lá? Nunca se submeteram a Ele, como aceitarão Seu reinado lá? E Deus, que dotou o ser humano do livre-arbítrio, respeita isso.

Para eles, o céu será um péssimo lugar.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Perigo dos Símbolos

Neemias Félix

Nada melhor do que o período de Natal para nos fazer refletir sobre os símbolos. Nem tanto sobre a importância deles, mas principalmente sobre o perigo que eles podem representar.

O dicionário Michaelis nos informa que símbolo é “qualquer coisa usada para representar outra, especialmente objeto material que serve para representar qualquer coisa imaterial”. Assim, o leão é o símbolo da coragem, enquanto a pomba com um ramo de oliveira na boca é o símbolo da paz.

Até aí, tudo bem. Símbolo é representação e é inevitável a faculdade humana de imaginar, associar, criar e, para sintetizar melhor suas idéias e crenças, usar um sem-número de símbolos, ícones, sinais e imagens. Tudo isso é objeto de estudo da complexa ciência da semiologia ou semiótica. Aliás, tão complexa quanto antiga.

O perigo está na linha tênue que separa o símbolo do objeto simbolizado. Exemplificando de maneira bem simples, é preciso lembrar que a pomba apenas simboliza a paz, mas não é a paz; assim como carregar um crucifixo pendurado no peito ou a Bíblia embaixo do braço não torna necessariamente o homem cristão, na melhor acepção da palavra.

Numa pesquisa simples em sala de aula alguns anos atrás, perguntei aos alunos o que a palavra Natal os fazia lembrar. Não me admirei quando ouvi palavras como Papai Noel, presente, árvore e brinquedo aparecerem,
sendo que o nome do bom velhinho obnubilou a figura de Jesus Cristo, única razão do Natal. Papai Noel passou a ser símbolo dessa época, foi alçado à categoria de protagonista, enquanto Jesus se transformou num insignificante figurante de sua própria festa!

Aprofundando um pouco mais a questão, chega-se a um quadro ainda mais desalentador. Nele não há mais perigo, mas tragédia. Refiro-me ao estágio, talvez último, da influência do símbolo e suas consequências funestas: o da superstição. Uma das manifestações dessa praga milenar consiste em atribuir poderes sobrenaturais a coisas materiais. Infelizmente um cristianismo supersticioso gerado no seio do romanismo da Idade das Trevas e que se havia enfraquecido com os bons ventos da Reforma ressurge e recrudesce mais forte que nunca também nas chamadas seitas neopentecostais. Reconhecer a cruz, por exemplo, como um símbolo importante do cristianismo é uma coisa; atribuir a dois pedaços de madeira cruzados ou a qualquer objeto-símbolo poderes sobrenaturais é uma ignorância inominável que está mais para voduísmo do que para prática cristã.

É por isso mesmo que a humanidade, inclusive o cristão nominal, se afasta cada vez mais da realidade simples e verdadeira do Criador para chafurdar na idolatria das coisas criadas, no misticismo ignorante, na crendeirice, na contrafação, no pântano insólito e visguento do obscurantismo. Quem assistiu a “O Exorcista” viu a inocuidade das fórmulas mágicas e dos rituais, dos objetos “sagrados” com supostos poderes: apesar de parecer que a menina tenha ficado livre dos ataques satânicos, os exorcistas são claramente derrotados pelo diabo. Ele apenas muda de corpo e simplesmente envergonha e mata os dois religiosos “cristãos”. Apesar de ser uma obra de ficção, o filme retrata bem o fim daqueles que dão ouvidos às fábulas e não se firmam na realidade cristalina e segura da Verdade de Cristo e da Palavra de Deus.