Neemias Félix
Crentino Evangelista Iglésias é um nome bem sugestivo e apropriado para quem se esmerou na arte de enganar os incautos evangélicos que o recebiam em casa, geralmente à hora das refeições. De casa em casa, filando almoços e jantares, há muito não trabalhava. Usava um estratagema bem simples: apresentava-se como evangélico, no tempo em que essa palavra evocava gente de bem, sem vícios, de bom coração. Era capaz de citar a igreja a que pertencia, com endereço, número de membros, pastor e, se necessário, até CNPJ.
Seu “ministério itinerante” terminou no dia em que encontrou um casal de crentes muito simples, porém zelosos e consagrados. Como de costume, disse o nome da igreja a que pertencia, com todos os detalhes tão bem memorizados que, a princípio impressionou os dois idosos. Conversa vai, conversa vem, finalmente o esperado convite para almoçar, já que Crentino havia informado que viajaria logo após o almoço e não tinha muito tempo para procurar um restaurante no centro da cidade, um pouco longe da casa de suas prováveis novas vítimas.
Tudo parecia ir muito bem. Comida quentinha na mesa, Crentino salivava, lambia os beiços, ávido para abocanhar as saborosas iguarias à sua frente. Até que a voz do velhinho se levantou firme, mais pela reverência santa do ancião do que pela qualidade física intrínseca:
-- Já que o irmão nos dá o prazer de sua presença, não se furtará, certamente, de dar graças pelo alimento que vamos receber das mãos do Senhor...
-- Dar... gra-gra... O que disse, irmão?
-- Ora, irmão Crentino, não vá dizer que o senhor, evangélico que é, não tem o hábito de orar antes das refeições.
-- Ah...hã.. sim... rezar... quer dizer, orar... né? Entendi...
“E essa, agora” – pensava o farsante, tentando imaginar uma saída para aquela situação que nunca acontecera antes. O casal fechara os olhos, as frontes curvadas piedosa e serenamente aguardavam a palavra do convidado. O silêncio, que a princípio parecia solene e reverente, foi-se prolongando até o constrangimento. Gotas de suor começam a aparecer na testa larga e reluzente do conviva. As mãos crispadas parecem implorar uma escapadela, um subterfúgio, por mais miserável que seja. Nada!
Por fim, a revelação da impostura, explodida nos enganosos lábios blasfemos:
-- Ô diacho! Não é que eu esqueci as palavras da danada da reza!...
Foi o último almoço de Crentino. E o fim da carreira do salafrário.
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