quinta-feira, 26 de maio de 2011

Palavras e Pedreiros Também Derrubam

Acreditem, palavras derrubam a gente. E não digo isso apenas figuradamente, embora um pedreiro semi-analfabeto já tenha me derrubado com uma delas, uns trinta anos atrás. Daquela vez ele me deu um trompaço violento com o feminino de jabuti. Numa conversa sobre femininos pouco usuais, recebi uma lição dolorosa, quando ele me ensinou:

--Jabuti tem feminino, sim, senhor. E é jabota. Nada desse negócio de epiceno que o senhor falou...

Só não fiquei mais envergonhado porque, numa crônica, Rubem Braga revela que o próprio Aurélio não conhecia arará, feminino de cupim, que está registrado no seu próprio dicionário.

A outra quase queda aconteceu algum tempo depois, quando estava terminando a construção da minha casa. A história é a seguinte:

Vendo meu pedreiro encolhido embaixo da pia da cozinha fazendo uns retoques finais e sabendo que ele era um sujeito curioso, apesar das pouquíssimas letras, resolvi instigá-lo com o seguinte comentário:

-- O espaço está um tanto exíguo aí, não é companheiro?

-- Exíguo? Que negócio é esse? Perguntou ele arfando e esticando o beiço, com olhar comprido de visível curiosidade.

Expliquei-lhe então que a palavra significava apertado, acanhado, estreito.
O sobrolho dele girava de um lado a outro enquanto resmungava entre dentes:

--Exíguo, hem... Que troço mais estranho.

O resultado da conversa veio dias depois. Aproveitando a presença do meu cunhado e de um amigo que haviam chegado da Bahia, resolvi instalar uma pesada caixa d’água numa cruzeta previamente construída pelo pedreiro a cinco metros de altura. Eu tinha feito uma espécie de estaleiro com degraus de madeira usada para facilitar a operação, mas subir a caixa de amianto era uma tarefa difícil, mesmo para quatro homens, por causa da estreiteza dos degraus. O pedreiro mal se equilibrava nas laterais.

Força daqui, força dali, lá ia a caixa subindo. Nós quatro impávamos, com o tremendo esforço que fazíamos. O barulho da respiração ofegante causava um sopra e puxa esquisito que beirava a ânsia resfolegante de um cavalo cansado. Quando a caixa chegou ao penúltimo degrau do estaleiro, com todo mundo suando às bicas, meu pedreiro nos interrompe, arquejante:

-- Não dá para subir mais! Não vamos conseguir!

Meu cunhado, nervoso, engole um palavrão e grita, incrédulo:

-- Como não dá? Dá, sim, já chegamos até aqui, vamos terminar, ora essa!

O pedreiro insiste, quase sufocado:

--- Já disse que não dá! Não podemos subir a caixa até o último degrau!

-- Mas por quê! Por quê??? Grita meu cunhado, irritado.

-- Por que o espaço aqui está muito exíguo! Diz o pedreiro sublinhando cada fonema da palavra.

-- Hã?! Hã?! Repete perplexo meu cunhado, com o olhar abobalhado e quase caindo do estaleiro.

É. Certas palavras ditas por certas pessoas podem derrubar. Literalmente.

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