Neemias Félix
Dentre os vários textos bíblicos usados pelos apologistas
para atestar a deidade de Cristo, é comum destacar os seguintes:
1. João 1.1, em que o autor afirma que “... o verbo
[Jesus] estava com Deus e o verbo era Deus”. A afirmação continua no
versículo 3: “...todas as coisas foram feitas por meio dele e sem ele nada do
que foi feito se fez”.
2. João 20.28, em que Tomé exclama, referindo-se a
Jesus: “Senhor meu e Deus meu!” Jesus aceita a declaração e adoração de Tomé.
Se não fosse Deus, Ele certamente aproveitaria a oportunidade para corrigir a
afirmação, o que não aconteceu.
3. Colossenses 2.9, em que Paulo afirma que nele [em
Jesus] “habita corporalmente toda a plenitude da divindade”.
4. I João 5.20, em que Jesus é identificado como
Deus: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”.
5. II Pedro 1.1, em que o autor O chama de “nosso
Deus e Salvador Jesus Cristo”.
Agregue-se a isso o fato de que Jesus: 1) aceitou a
adoração daqueles que se prostravam diante dele, como, por exemplo, em Mt 2.2,11; 8.2; 14.33; 28.9; Jo 9.38; 2) aceitou os judeus declararem que ele,
“sendo homem, se fazia igual a Deus” (Jo 10.30); 3) reivindicou identidade com
o Pai, ao dizer “eu e o pai somos um”
(Jo 10.33); 4) perdoou pecados,
prerrogativa unicamente divina (Mc 2.1-12); 5) ressuscitou várias pessoas,
inclusive, a Si mesmo.
Creio
que bastariam os textos acima arrolados para convencer alguém que tivesse uma
mente mais ou menos aberta para compreender, um coração com alguma
sensibilidade para perceber e um pouco de disposição para aprender. Um
argumento irretorquível e devastador, entretanto, usado num comentário alemão
no fim do século dezenove, costuma ser mencionado pelo apologeta Dr. Paulo
Romeiro, fundador do ICP (Instituto Cristão de Pesquisas) em suas palestras. Ele
(o argumento) tem o poder de demolir unicistas, jeovistas e arianistas, a não
ser que o debatedor decididamente não
queira aceitar a verdade cristalina, não apenas a respeito da deidade de Cristo
como também da trindade.
Apresento-o
agora, à guisa de exercício:
Pegue
a sua Bíblia e abra-a em Isaías 6, passagem em que o profeta tem uma visão da
glória de Deus. No versículo primeiro ele diz: “No ano em que morreu o rei Uzias,
eu vi [esse grifo e os seguintes são
meus] ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia
o templo”. No verso 8, ele diz mais: “Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir
por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim”.
A
quem o profeta viu e ouviu? Ora, Isaías viu e ouviu ao Senhor, a
Deus, ou, se os jeovistas preferirem, a Jeová. Mas avancemos e vejamos o que
mais é dito por Deus, nos versículos 9 e 10:
Então disse ele: Vai, e dize a este
povo: Ouvis, de fato, e não entendeis,
e vedes, em verdade, mas não percebeis. Engorda
o coração deste povo,
e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os
olhos; para que ele não
veja com os seus olhos, e não ouça
com os seus ouvidos, nem entenda
com o seu coração, nem se converta e
seja sarado.
Continuemos
o nosso exercício apologético. Abra agora a sua Bíblia em João 12 e comece a
ler a partir do versículo 36. Quem está exortando o povo a acreditar nEle?
Jesus, é claro. No verso 37, João lamenta: “E,
ainda que tivesse feito tantos sinais diante deles, não criam nele”. Nos versos 38 e 40, João faz citações diretas
do profeta Isaías (registradas acima). O 38 se reporta a Isaías 53, o que não
nos interessa nesse confronto. Mas veja o 39 e o 40.
Por isso não podiam crer, então Isaías disse outra vez:
Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes
o coração, a fim de que não vejam
com os olhos, e compreendam no
coração, e se convertam, eu os cure.
E
no versículo 41, João solta esta bomba:
Isaías disse isto quando viu a sua glória e
falou dele.
Recapitulemos:
As pessoas não criam em quem? Nele. Nele quem? Jesus, é claro! E Isaías viu a sua glória e falou dele. Dele quem? Jesus, é claro! Quer dizer que João, tão inspirado e
canônico quanto o profeta do passado, está afirmando que Isaías viu a glória de Jesus quando estava no
templo? Bem, para mim está claro, para você está complicado demais? Então,
acalme-se, que o confronto vai ficar mais complicado ainda:
Folheie
um pouco mais e pare em Atos 28. Comece a leitura pelo versículo 24 e vá até o
27.
(24)
E alguns criam no que se dizia; mas
outros não criam.
(25) E, como ficaram entre si discordes,
despediram-se, dizendo Paulo
esta palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías,
(26) Dizendo: Vai a este povo, e dize: De ouvido
ouvireis, e de maneira
nenhuma entendereis; e, vendo vereis, e
de maneira nenhuma percebereis.
(27) Porquanto o coração deste povo está
endurecido, e com os ouvidos
ouviram pesadamente, e fecharam os olhos,
para que nunca com os
olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem
do coração entendam,
e se converta, e eu os cure.
A
citação é a mesma: Isaías 6.9,10. Ele diz que a palavra veio de Deus (Iavé,
Jeová); João afirma que quem falou foi
Jesus; já Paulo assevera que quem falou foi o Espírito Santo. Afinal, quem
Isaías viu e ouviu? Ora, segundo a lei das contradições, duas afirmações não
podem ser contrárias sobre o mesmo assunto ao mesmo tempo, assim como um homem
não pode ser, ao mesmo tempo, homem e melancia.
O
cotejo dos textos apresentados só nos pode levar a uma conclusão: a trindade é
uma realidade incontestável. Se, ao contrário, não reconhecermos essa verdade,
nossa renitência será passível de ser tachada, no mínimo, de desintelingência.