terça-feira, 20 de março de 2012

Um argumento demolidor a favor da trindade


Neemias Félix

Dentre os vários textos bíblicos usados pelos apologistas para atestar a deidade de Cristo, é comum destacar os seguintes:

1. João 1.1, em que o autor afirma que “... o verbo [Jesus] estava com Deus e o verbo era Deus”. A afirmação continua no versículo 3: “...todas as coisas foram feitas por meio dele e sem ele nada do que foi feito se fez”.
2. João 20.28, em que Tomé exclama, referindo-se a Jesus: “Senhor meu e Deus meu!” Jesus aceita a declaração e adoração de Tomé. Se não fosse Deus, Ele certamente aproveitaria a oportunidade para corrigir a afirmação, o que não aconteceu.
3. Colossenses 2.9, em que Paulo afirma que nele [em Jesus] “habita corporalmente toda a plenitude da divindade”.
4. I João 5.20, em que Jesus é identificado como Deus: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”.
5. II Pedro 1.1, em que o autor O chama de “nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”.

Agregue-se a isso o fato de que Jesus: 1) aceitou a adoração daqueles que se prostravam diante dele, como, por exemplo, em Mt 2.2,11; 8.2; 14.33; 28.9; Jo 9.38; 2) aceitou os judeus declararem que ele, “sendo homem, se fazia igual a Deus” (Jo 10.30); 3) reivindicou identidade com o Pai, ao dizer  “eu e o pai somos um” (Jo 10.33); 4) perdoou pecados, prerrogativa unicamente divina (Mc 2.1-12); 5) ressuscitou várias pessoas, inclusive, a Si mesmo.

Creio que bastariam os textos acima arrolados para convencer alguém que tivesse uma mente mais ou menos aberta para compreender, um coração com alguma sensibilidade para perceber e um pouco de disposição para aprender. Um argumento irretorquível e devastador, entretanto, usado num comentário alemão no fim do século dezenove, costuma ser mencionado pelo apologeta Dr. Paulo Romeiro, fundador do ICP (Instituto Cristão de Pesquisas) em suas palestras. Ele (o argumento) tem o poder de demolir unicistas, jeovistas e arianistas, a não ser que o debatedor decididamente não queira aceitar a verdade cristalina, não apenas a respeito da deidade de Cristo como também da trindade.

Apresento-o agora, à guisa de exercício:

Pegue a sua Bíblia e abra-a em Isaías 6, passagem em que o profeta tem uma visão da glória de Deus. No versículo primeiro ele diz: “No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi [esse grifo e os seguintes são meus] ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo”. No verso 8, ele diz mais: “Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim”.

A quem o profeta viu e ouviu? Ora, Isaías viu e ouviu ao Senhor, a Deus, ou, se os jeovistas preferirem, a Jeová. Mas avancemos e vejamos o que mais é dito por Deus, nos versículos 9 e 10:

           Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis,
           e vedes, em verdade, mas não percebeis. Engorda o coração deste povo,
           e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não
          veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda
          com o seu coração, nem se converta e seja sarado.

Continuemos o nosso exercício apologético. Abra agora a sua Bíblia em João 12 e comece a ler a partir do versículo 36. Quem está exortando o povo a acreditar nEle? Jesus, é claro. No verso 37, João lamenta: “E, ainda que tivesse feito tantos sinais diante deles, não criam nele”.  Nos versos 38 e 40, João faz citações diretas do profeta Isaías (registradas acima). O 38 se reporta a Isaías 53, o que não nos interessa nesse confronto. Mas veja o 39 e o 40.

           Por isso não podiam crer, então Isaías disse outra vez:
          Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, a fim de que não vejam
         com os olhos, e compreendam no coração, e se convertam, eu os cure.

E no versículo 41, João solta esta bomba:

       Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele.

Recapitulemos: As pessoas não criam em quem? Nele. Nele quem? Jesus, é claro! E Isaías viu a sua glória e falou dele. Dele quem? Jesus, é claro! Quer dizer que João, tão inspirado e canônico quanto o profeta do passado, está afirmando que Isaías viu a glória de Jesus quando estava no templo? Bem, para mim está claro, para você está complicado demais? Então, acalme-se, que o confronto vai ficar mais complicado ainda:

Folheie um pouco mais e pare em Atos 28. Comece a leitura pelo versículo 24 e vá até o 27.

      (24)  E alguns criam no que se dizia; mas outros não criam.
             
      (25)  E, como ficaram entre si discordes, despediram-se, dizendo Paulo
      esta palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías,

      (26)  Dizendo: Vai a este povo, e dize: De ouvido ouvireis, e de maneira      
       nenhuma entendereis; e, vendo vereis, e de maneira nenhuma percebereis.

      (27) Porquanto o coração deste povo está endurecido, e com os ouvidos
      ouviram pesadamente, e fecharam os olhos, para que nunca com os
      olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem do coração entendam,
      e se converta, e eu os cure.

A citação é a mesma: Isaías 6.9,10. Ele diz que a palavra veio de Deus (Iavé, Jeová); João afirma que quem falou foi Jesus; já Paulo assevera que quem falou foi o Espírito Santo. Afinal, quem Isaías viu e ouviu? Ora, segundo a lei das contradições, duas afirmações não podem ser contrárias sobre o mesmo assunto ao mesmo tempo, assim como um homem não pode ser, ao mesmo tempo, homem e melancia.

O cotejo dos textos apresentados só nos pode levar a uma conclusão: a trindade é uma realidade incontestável. Se, ao contrário, não reconhecermos essa verdade, nossa renitência será passível de ser tachada, no mínimo, de desintelingência.





sábado, 17 de março de 2012

O que a igreja institucional deveria aprender com o A.A.


Neemias Félix

Antes da minha conversão, participei por uns quatro anos de um grupo de A.A. Para quem não sabe, A.A. é a abreviatura de Alcoólicos Anônimos, uma irmandade de homens e mulheres que buscam não apenas parar de beber, mas sobretudo permanecer sóbrios.

Com a graça de Deus nos meus calcanhares desde aquela época, ficava admirado com a simplicidade da estrutura e funcionamento desses grupos de ajuda mútua e me perguntava como podiam ter crescido tanto. Estávamos no início da década de 1980. O A.A., fundado em 1935, já estava presente em mais de 120 países com cerca de 70.000 grupos. Mal suspeitava eu que um dos segredos desse crescimento era exatamente a sua simplicidade.

Quando a graça me subiu ao coração, senti-me envolvido por uma necessidade, um desejo incontido de participar de uma igreja, o que deve ser natural em todo cristão. Lembro-me, porém, de repetir esta frase com muita frequência: “Preciso participar de uma ‘agremiação religiosa’ (essa era a expressão que eu usava), mas ela deve ser simples assim, como o A.A”.

Quem entrar numa sala de A.A., invariavelmente alugada, vai encontrar algo mais ou menos assim: um coordenador que, sentado à mesa, em certos momentos, dá algumas orientações ou informações; um grupo de pessoas sentadas em cadeiras ou bancos. (Em certos lugares, não há nem mesa, mas apenas um círculo formado pelos participantes). O coordenador convida então algumas pessoas para se levantar, uma por vez, e dar o que chamam de depoimento. Com muita simplicidade, elas falam de quando bebiam e de como estão vivendo sem beber. Isso dura uns dez minutos. Ao terminar, são aplaudidas e voltam aos seus assentos. No intervalo da reunião, que dura entre uma hora e meia e duas horas, é servido um cafezinho simples, regado por uma conversa alegre e descontraída. Esse também é o momento da passada da “sacolinha”. O coordenador faz questão de enfatizar que só devem contribuir aqueles que são membros do grupo ou da irmandade. Pingam então moedas e notas de pequeno valor. É o suficiente para o grupo cuidar da manutenção da sala, pagar o café, o aluguel e a literatura, que é distribuída àqueles que vão se agregando ao grupo. Simples assim.
O A.A. não faz propaganda de si mesmo; espera que os outros a façam. Busca, entretanto, aqueles que querem parar de beber, o que seus membros chamam de “abordagem” ou “prática do décimo-segundo passo”. A irmandade, como dizem seus membros, prefere “a atração à promoção”. Seu “preâmbulo”, que aparece em toda a sua literatura, é muito claro: o A.A. não se envolve em controvérsias públicas, não está ligado a nenhuma seita ou religião, a nenhum movimento político, a nenhuma organização ou instituição. O anonimato é uma tradição fundamental. Não recebe contribuição financeira de fontes externas; ao contrário, deixa claro: “somos autossuficientes graças às nossas próprias contribuições”. Não admira que não se ouçam notícias sobre corrupção e falcatruas em seus arraiais nesses quase 80 anos de existência.

Observando a trajetória da igreja cristã nos últimos mil e setecentos anos, período em que ela se transformou numa instituição pesada, com características tão seculares como as de uma empresa multinacional, já nem ouso sugerir uma volta à estrutura, aos princípios e às práticas da igreja primitiva.  Sugeriria, entretanto, que, feitas as devidas ressalvas, já que o A.A. não é e nunca pretendeu ser uma igreja ou substituí-la, que as igrejas institucionais aprendessem com essa irmandade as lições relativas à sua simplicidade e organização funcional, até porque muito do que esses grupos põem em prática está nos encontros das comunidades cristãs do primeiro século.

Não foi por acaso, inclusive, que o A.A. recebeu, no início de sua formação, contribuições importantíssimas de religiosos, como o jesuíta Edward Dowling e o pastor da Igreja Episcopal, Dr. Samuel Shoemaker.  E é irônico que provavelmente esses homens nunca tenham posto em prática a simplicidade, a leveza e a funcionalidade desses grupos em suas próprias igrejas.

Se as igrejas institucionais aprendessem um pouco com o A.A., teriam muito a ganhar em crescimento qualitativo e organicidade, sem falar na prevenção de problemas relacionados a poder e ambição, tentações que  existem desde que os olhos de Eva saltaram de suas órbitas diante da árvore do Conhecimento.