quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O CLÉRIGO

Poema vencedor do 23.º PRÊMIO MOUTONNÉE DE POESIA
Salto, São Paulo

Neemias Félix

Fechado em sacros paramentos sacos
lá vem o clérigo
Na tonsura, o súcio, o circo
- cisão que sobe vinda do prepúcio?
único heliponto da lisura?
De roupa escura
lá vem o cura
Já falou latim ao povo tartamudo, mudo
e a  voz piedosa dosa a intenção maldosa
Quem TV no colarinho em V nada vê
O clérigo
tem mitra, báculo e barrete
e canta, é claro, que em falsete
É cleptomente
e rouba o sacerdócio de todos os crentes
O clérigo não se entrega, intriga e migra
reforma, transmuda e, num instante
renasce em berço e rito protestante
lembrando priscas eras e filacteras
Na língua em pano, em fato domingueiro
velha batina, hábito romano
O clero agora em tom tão evangélico
adora a distinção e os privilégios
ostenta títulos e engendra sortilégios
Enquanto o Mestre se despe, o clérigo veste mais
se enfuna e inflama em vestes clericais
O microfone em riste é poder e assalto
e ocupa sempre lugares mais altos
O clérigo é mais que ativo, é corporativo
Ameaçado, saca este penhor
não alce o braço contra o ungido do Senhor
A tradição que trai sempre insepulta
o odre novo e fresco catapulta
sufoca e acalma a torpe turbamulta
Um lema tem e não faz isso a esmo

que é mudar sempre pra ficar no mesmo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ESSAS COISAS NÃO APRENDEM NUNCA!

Neemias Félix

Essas coisas não aprendem mesmo.

Garrafas de bebida, por exemplo. Por que não param de encher os copos de pessoas que bebem desregradamente? Não sabem que dez por cento da população tem predisposição ao alcoolismo? Será que não leem, não se informam sobre esses fatos abundantemente noticiados e comentados em jornais, revistas, enfim, por todos os meios de comunicação?

E os copos? Por que não reagem, por que não se recusam a ser virados a todo instante nas bocas desses pobres, inocentes e desinformados consumidores compulsivos?

E o que dizer dos cigarros, inclusive os de maconha? E as outras drogas, cuja liberação é tão bem defendida por Minc e FHC? Por que continuam a pular celeremente aos lábios dos ignorantes dependentes? Por que não gritam aos quatro ventos suas quatro mil substâncias cancerígenas, psicoses, apatia e distimia?

E vocês, ó postes estáticos, insensíveis e incomplacentes! Por que não se dobram aos impactos dos bólidos motorizados para diminuir os estragos nos seus ingênuos ocupantes? Por não se esquivam, não saem da frente dos puros e trôpegos bebuns cinesíforos?

Balas, por que não se desviam de suas vítimas? Armas, por que saem por aí disparando a esmo e matando inocentes, empunhadas por tanta gente de boa intenção? Pra vocês, só o desarmamento, suas tontas!

Essas coisas são muito burras mesmo. Poderiam ser como os humanos, tão inteligentes, tão lógicos, tão racionais.


Realmente, essas coisas não aprendem nunca!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A PARÁBOLA DO CACÓFAGO INSENSATO

Neemias Félix

O sábio e vetusto Nephele Bardo contou também esta parábola.

Certo homem que habitava o pequeno Reino das Bananas tinha o esquisito hábito de comer excremento. Cacofagia é o nome que se dá a esse tipo de hábito.

Apesar de estranho, o hábito desse homem até que era bem tolerado pela maioria das pessoas. É verdade que alguns o reprovavam por essa prática. Uns diziam que era antinatural; outros, que era doentia; outros mais, que era um grave pecado, uma verdadeira abominação contra o próprio Deus. O cacófago, entretanto, continuava com a sua prática, na maioria das vezes em lugares esconsos ou até no interior da sua própria casa. Assim a vida continuava sem grandes conflitos naquele país.

Tempos depois, porém, o homem descobriu que outros concidadãos tinham o mesmo hábito que ele, que a sua dejetomania se estendera por todo daquele musáceo país. Depois que um rei eneadátilo, com hábitos também sinistros, assomou ao trono, a comunidade dos cacófagos ganhou um apoio nunca antes visto na história daquele país. Até uma secretaria foi criada para cuidar dos direitos dos coprófagos. Estava desfraldada, pois, a bandeira da cacofagia!

A televisão apresentava personagens cacófagos nas novelas, dando-lhes uma notoriedade surpreendente. Para não chocar a grande maioria cristã, a princípio apresentou apenas as cenas de pessoas só inalando os odores dos excrementos; depois as cenas deslavadas, verdadeiros banquetes cacofágicos. As passeatas, chamadas de “Insolência Cacofágica”, se espalharam pelo paiseco das bananas, as associações de cacófagos se multiplicavam pelo reino, e seus líderes se apresentavam nos programas de TV. Deputados eram eleitos e reivindicavam o direito à cacofagia. Os números das estatísticas eram manipulados, qualquer agressão a um cacófago era noticiada à exaustão pela imprensa. E um termo desprezível, repugnante e capcioso foi criado para designar os que não aceitavam essa prática: cacofóbico. O movimento, que agrupava também aqueles que apenas aspiravam os odores fecais, criou a sigla sugestiva, inevitável e cacofônica CACAS , que quer dizer “Cacófagos, Cheiradores, Assemelhados e Simpatizantes”.

Os cacófagos queriam muito mais: a cacofagia oficializada. E não mediram esforços para atingir esse objetivo. Pelas caladas, num projeto que punia vários tipos de preconceito, chegaram ao cúmulo de introduzir artigos para criminalizar aquilo que eles chamavam de cacofobia, mesmo que fosse uma simples opinião contrária, com cadeia. Enquanto o projeto de lei se arrasta até hoje no Senado, em virtude da oposição de uns aguerridos e quase combalidos conservadores, o movimento já conseguiu o apoio do STF, que aprovou a união civil cacofágica, espécie de contubérnio em que as pessoas adeptas dessa prática vivem sob o mesmo teto como se fossem cônjuges comuns.

A continuar nessa marcha, o movimento cacofágico, a exemplo do que aconteceu com o personagem alienista de Machado de Assis, vai acabar por encarcerar todos os seres humanos eutróficos como insanos e dominar totalmente o país.

“Acautelai-vos contra os cacófagos insensatos”, termina o sábio Nephele Bardo. “Eles fingem ser pobres coitados que defendem seu supostos direitos, vítimas do preconceito da maioria, mas, na verdade, querem mesmo é impor, enfiar oficialmente sua perversão goela abaixo da sociedade pusilânime e passiva do Reino das Bananas.”


Assim o Reino das Bananas vai se tornar, de vez, com o devido perdão do tabuísmo, uma verdadeira merda!

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AMOR E MÁ VONTADE

Neemias Félix

Que o amor não é apenas sentimento parece ser ponto pacífico entre todos aqueles que tentam atinar com o sentido dessa palavra tão profunda quanto indefinível. O amor quase sempre envolve sentimento, ou, pelo menos, pode ser envolvido pelos mais variados níveis de emoção. É possível, porém, realizar ações concretas de amor sem derramar uma única lágrima. É assim que ele se manifesta na prática, sem necessidade de melifluidade ou pieguice.

Uma admoestação firme, uma correção severa para impedir que uma pessoa se perca nos seus descaminhos não deixa de ser um ato de amor e cumpre o que diz Hebreus 12.6: “Deus corrige a quem ama e castiga todo aquele a quem aceita como filho”. Passar a mão na cabeça de alguém que está prestes a cair em desgraça não é amar, é omitir-se, por mais que isso seja regado a lágrimas sinceras.

Como a Bíblia não define exatamente o que é o amor, como fazem os dicionários, mas mostra os seus atributos e características, algumas delas aparentemente inconciliáveis, como “tudo suporta” e “não se alegra com a injustiça”, ele ganha ares de algo profundo e misterioso, o que nos deixa em dúvida quanto a certas atitudes que tomamos na fria realidade do nosso dia a dia.

Proponho, pois, a seguinte questão: é possível haver amor em meio à má vontade? E ilustro isso com o seguinte caso concreto:

Estou eu concentrado nas minhas profundas reflexões existenciais, tentando parir alguma ideia digna de ser lavrada na alva e ansiosa tela do meu circunspecto notebook, quando sou convocado pela minha mulher para a tarefa mais desagradável do mundo: lavar o trovão cinza, mais cinza do que o normal, porque parece que toda a poeira do mundo resolveu depositar-se na outrora reluzente lataria do nosso Siena.

No meu levantar, reúno o sobrecenho franzido, a cara amarrada e o máximo da má vontade. Irreprimível. Indisfarçável.

Mas vou. Vou e faço o melhor que posso entre resmungos e muxoxos. No final do holocausto, digo, da tarefa, até admiro a boa obra realizada, ainda que sob a mais tremenda indisposição, e chego até a sorrir pensando que a empreitada poderia ter sido pior, nesse caso, arrancar raízes de aipim na plantação do quintal dos fundos.

E aí? Houve amor na minha boa ação? Paulo diz que ainda que desse seu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso se aproveitaria. Logo, minha ação, sob o ponto de vista da motivação, redundaria em nada. Nada? Mas como, se a tarefa foi realizada, afinal, e todos pudemos ir ao casamento com o carro limpinho e bem apresentável?

A meu favor talvez apenas aquela parábola dos dois filhos contada por Jesus. Ele diz que o pai ordenou a dois filhos que fossem ao campo. O primeiro disse que iria e não foi. O segundo, entretanto, disse que não iria, mas foi. O segundo foi elogiado porque, apesar da negativa inicial, obedeceu à ordem dada.

No meio desse turbilhão de ideias meio desencontradas, não deixo de pensar ainda no meu cunhado que lava o carro com o maior prazer. Sabe aquele sujeito que gasta duas horas nessa tarefa e, no finalzinho, ainda joga aquele bafo no retrovisor para a última esfregada e a termina orgasticamente feliz? É ele. Gostaria de ser assim, mas não sou. No entanto, quem deu mais de si, quem se esforçou, se sacrificou mais para agradar à amada, mesmo contra a vontade? É como aquele pianista que tem o dom de tocar e faz isso aos três, quatro anos de idade, muito bem, enquanto outro, já adulto, estuda horas e horas por dia para conseguir uma apresentação apenas digna.

Difícil classificar algumas ações como virtude ou pecado em certas situações, não é? E enquanto me puno por pensar em não ter praticado um gesto com o amor que deveria, consolo-me um pouco ao ouvir a voz de Davi, em II Sm 24.24: “Jamais darei ao meu Senhor holocaustos que não me custem nada”. Enfim, melhor deixar essas coisas para os teólogos de plantão. Melhor ainda, para o próprio Deus.





terça-feira, 30 de julho de 2013

O Filho de Stewart Granger

Neemias Félix

Para os mais jovens, apenas um nome entre tantos que aparecem em reportagens do Fantástico. Pior: com todas aquelas ilações precipitadas e negativas que nos vêm à mente quando se noticia que alguém comprou um terreno de algum assentado. Mesmo que esse lugar árido, inóspito e improdutivo tenha se tornado uma nesga, um pequeno paraíso encravado nos arredores de Cumuruxatiba, Bahia. Para mim, criança e adolescente dos dourados anos da década de 1960, Jamie Stewart Granger lembra algo mais, muito mais.

E foi assim que, alguns dias depois da reportagem, dando umas voltas de carro pelas ruas de Prado, divisei, do outro lado da praça, a figura que me ficara na cabeça desde aquele domingo à noite.

-- Olha lá, olha lá. É ele! -- disse à Marília, minha mulher, enquanto passava em frente ao supermercado.
-- Ele quem? Nossa, você me assustou!...
-- É ele mesmo. O filho do Stewart Granger!
-- Que olho, hem, reconhecê-lo assim...
-- Puxa vida... Eu tenho que ver esse cara. Nem que seja só pra ver se ele se parece mesmo com o pai, o famoso Stewart Granger.

Aqui é necessário dar algumas informações aos mais jovens e àqueles que não se ligam muito em cinema, enfim, que não têm o hábito de guardar nomes de filmes e artistas, gente assim.

Stewart Granger foi um grande ator anglo-americano. Nascido na Inglaterra, veio para os Estados Unidos e ficou famoso trabalhando em filmes como As Minas do Rei Salomão, em que contracena com a não menos famosa Debora Kerr; O Espadachim de Siena, com Sylva Koscina, e Scaramouche, com Vivien Leigh e Mel Ferrer. Aliás, Scaramouche tem a melhor e mais longa luta de espada da história do cinema. São mais de seis minutos, com um verdadeiro show dos esgrimistas. O filme é muito reprisado em canais como o TCM.

Mas voltemos à minha pequena aventura nas ruas de Prado. Quando tentei passar para o outro lado da praça de alimentação, cadê o homem? Sumiu. Volatizou-se!
-- Vamos entrar numa dessas ruelas. Ele estava ali, ao lado do Banco do Brasil. Deve ter entrado em alguma loja – me estimulou Marília.

-- Vamos lá. Não podemos perder a oportunidade de ver o filho do grande Stewart Granger.

Fizemos uma verdadeira investigação pelas ruelas, voltamos à rua principal, à praça e... nada. Decepção.

-- Fica aqui fora enquanto eu entro nessa loja para ver umas coisas – disse Marília. Quem sabe você ainda acaba vendo o tal... como é mesmo o nome dele?

-- Vai, vai, entra na loja enquanto eu fico de olho.

Atravesso a praça a pé, entro em lojas, restaurantes, nada! “Pareço até adolescente”—falei baixinho – “e o cara nem é famoso, o pai dele é que era famoso e isso há muitos anos”. “Adolescente nada, acho é que estou ficando velho. Besteira...”

Depois de vários minutos de observação, vejo um senhor alto, forte, usando uma bermuda quadriculada, boné branco, com um rabo de cavalo minúsculo que mal dava para amarrar, atravessando a rua, bem longe.

-- É ele, Marília, é ele. Desta vez não me escapa.

-- Vai logo. Realiza esse desejo enquanto eu vejo um presentinho pra casa da Márcia, que vai mudar para a nova residência. Vai!

Saí dali fuzilando, mas com os olhos fitos naquela figura que me trazia tantas lembranças da infância e adolescência. O Cine Teatro Elda, seu Ismênio, na porta, recolhendo os ingressos da garotada; Zé Quitiba sisudo conferindo a idade dos meninos; a gurizada trocando gibis. Lá dentro, as músicas do Trio Irakitan, todas do LP “Boleros que Gostamos de Cantar”. Orogildo abrindo as cortinas, o Canal 100, os trailers das chanchadas da Atlântida. Corro meio esbaforido com esse turbilhão de lembranças. Ele entrou na casa lotérica da Caixa. Está lá para pagar umas contas.

Emocionado, me aproximo devagar, o coração aos saltos.

-- Você é o Jamie Stewart Granger? O filho do grande Stewart Granger?

Ele não ouviu direito. O pessoal conversa alto. Deu vontade de falar para todo mundo. “Sabem que este é o filho do grande ator de Hollywood Stewart Granger?” Não adiantaria. Hoje ninguém aqui no Prado sabe dessas coisas. Acho mesmo que a maioria dos brasileiros não sabe quem foi Stewart Granger.

Agora ele se abaixa um pouco e responde com sotaque americano e confirma. Sim, estou diante do filho de Stewart Granger. Digo que é um prazer conhecê-lo, que queria ver se ele parecia mesmo com o pai. Ele me aperta a mão e pergunta: “Pareço?” Digo que sim e encho-o de perguntas como se fosse um repórter. “Como é ser filho de um grande ator como seu pai?” “Como veio parar no Brasil?” Ele conversa comigo como se fôssemos amigos de longa data. Fala da fama do pai. Diz que trabalhava muito e viajava muito também. Muita fama, mas na época não ganhava tanto dinheiro com os atores de hoje. Fala da mãe, Elspeth March, que atuava mais no teatro. Que seu pai se casou novamente com a belíssima Jean Simmons e fez cerca de setenta filmes. Fala também do caso dos terrenos, culpa a omissão do Incra e diz que as terras foram  vendidas e revendidas nos últimos 25 anos e que ninguém sabe quem são os donos originais. Comprou o dele de um advogado. Que ficou chateado com a reportagem. É fotógrafo, está há trinta anos no Brasil e há oito em Cumuruxatiba. Que investe muito para tornar o local bonito, um paraíso. “Quando passar por lá, por favor, me visite.”

Despeço-me e saio feliz da casa lotérica. Conheci o filho do grande Stewart Granger. Mais que isso, agora somos amigos. As imagens da minha infância ainda pululam na minha cabeça. Enquanto tropeço na realidade da calçada à minha frente, é difícil não pensar meio infantilmente: “Puxa, sou amigo do filho do famoso Stewart Granger.”



quarta-feira, 26 de junho de 2013

CREIO NUM DEUS QUE MATA, SIM.


Neemias Félix
Creio num Deus que respeita a vontade do homem em escolher viver longe dEle e, apesar do Seu amor manifestado na cruz, creio  que esse mesmo Deus pode deixá-lo ir diretinho diretinho para o inferno, que imagino ser mais a ausência do Criador do que um lugar terrível e asqueroso. Até porque, se fossem forçadas a ir para o céu, essas pessoas se sentiriam desconfortáveis, deslocadas como “peixes fora da água”, na presença de um Deus tão santo e tão bom.

Não creio que Deus esteja "de bem" com a Humanidade. Está, isto sim, de bem consigo mesmo. Um Deus que chora e lamenta sobre a Humanidade perdida e vê o "mundo jazendo no Maligno" não pode estar tão tranquilo assim.


Creio, sim, num Deus que também manda matar e delegou às autoridades (ao Estado) o poder de usar a espada (Rm 13.4) como elemento saneador e não vingativo ou odiento para extirpar a vida daquele que, como um câncer ou certos agentes patogênicos, infecciona a Humanidade. Nem sempre matar é um mal. Extirpar um tumor canceroso é, também, uma prova de amor. Assim, analogicamente, creio ser a pena de morte uma medida extrema, mas necessária para alguns tipos de crime. Discordar dela é querer ser mais justo do que o próprio Deus. E eu não sou.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O INIMIGO INSUSPEITÁVEL DA FAMÍLIA


Neemias Félix

Se perguntássemos à maioria dos cristãos brasileiros a respeito do maior inimigo da família, provavelmente teríamos como resposta a falta de amor, a televisão, a Internet, os problemas financeiros, etc., no que não estariam completamente errados.

Há, no entanto, um inimigo mais forte, pela sua sutileza, sagacidade e por açambarcar uma série de prerrogativas, adquirindo assim um poder incrivelmente enorme e, pior que isso, insuspeitável. Não estou falando de nada sobrenatural, portanto, se você pensou no Diabo, enganou-se, ainda que o Príncipe das Trevas possa estar por trás de toda obra de natureza ruim.

Refiro-me ao Estado, aqui entendido como conjunto das instituições que controlam e administram uma nação, incluindo os Três Poderes, que tanto conhecemos desde os bancos das escolas primárias.

Considerando apenas os últimos dez anos, a família recebeu mais ataques dessa instituição do que nos mais de cem anos de existência da República. Não bastasse o desleixo com a segurança dos cidadãos, que nunca consegue proporcionar, por causa da extrema leniência das leis e relaxamento na sua execução, e a sua enorme sede de arrecadar impostos para malgastá-los em suas homéricas farras, o Estado brasileiro vai, gradativamente mas com muita fúria, solapando os valores mais caros da nação brasileira cristã.

Desde o Estatuto da Criança e do Adolescente à insólita e inconstitucional união estável de pessoas do mesmo sexo; desde as tentativas constantes de descriminação do aborto e da maconha à regularização da “profissão” de prostituta. Sem mencionar o absurdo PL 122, que tenta amordaçar toda a comunidade cristã brasileira, e a intromissão ditatorial nos costumes e práticas tradicionais da família, com a proposta da Lei da Palmada, excrescência que nem as piores ditaduras mundiais ousaram realizar.

O pior é que a sociedade, de modo geral, assiste passivamente a esses desmandos, sem nenhuma noção da gravidade do momento que estamos vivendo. Apenas umas poucas vozes da liderança cristã, algumas delas pouco abalizadas até por questões éticas, se levantam com a coragem de profetas como Elias e João Batista para bradar contra esse Estado insensato.

Que no mês de maio, escolhido como o Mês da Família, Deus nos traga à reflexão, à consciência e à ação efetiva, como cristãos de dupla cidadania. Que terra e céu se abracem num objetivo só.