Neemias Félix
Para os mais jovens, apenas um nome entre tantos que
aparecem em reportagens do Fantástico. Pior: com todas aquelas ilações
precipitadas e negativas que nos vêm à mente quando se noticia que alguém comprou
um terreno de algum assentado. Mesmo que esse lugar árido, inóspito e
improdutivo tenha se tornado uma nesga, um pequeno paraíso encravado nos
arredores de Cumuruxatiba, Bahia. Para mim, criança e adolescente dos dourados
anos da década de 1960, Jamie Stewart Granger lembra algo mais, muito mais.
E foi assim que, alguns dias depois da reportagem, dando
umas voltas de carro pelas ruas de Prado, divisei, do outro lado da praça, a
figura que me ficara na cabeça desde aquele domingo à noite.
-- Olha lá, olha lá. É ele! -- disse à Marília, minha
mulher, enquanto passava em frente ao supermercado.
-- Ele quem? Nossa, você me assustou!...
-- É ele mesmo. O filho do Stewart Granger!
-- Que olho, hem, reconhecê-lo assim...
-- Puxa vida... Eu tenho que ver esse cara. Nem que
seja só pra ver se ele se parece mesmo com o pai, o famoso Stewart Granger.
Aqui é necessário dar algumas informações aos mais
jovens e àqueles que não se ligam muito em cinema, enfim, que não têm o hábito
de guardar nomes de filmes e artistas, gente assim.
Stewart Granger foi um grande ator anglo-americano.
Nascido na Inglaterra, veio para os Estados Unidos e ficou famoso trabalhando
em filmes como As Minas do Rei Salomão,
em que contracena com a não menos famosa Debora Kerr; O Espadachim de Siena, com Sylva Koscina, e Scaramouche, com Vivien Leigh e Mel Ferrer. Aliás, Scaramouche tem a melhor e mais longa
luta de espada da história do cinema. São mais de seis minutos, com um
verdadeiro show dos esgrimistas. O filme é muito reprisado em canais como o
TCM.
Mas voltemos à minha pequena aventura nas ruas de
Prado. Quando tentei passar para o outro lado da praça de alimentação, cadê o
homem? Sumiu. Volatizou-se!
-- Vamos entrar numa dessas ruelas. Ele estava ali,
ao lado do Banco do Brasil. Deve ter entrado em alguma loja – me estimulou
Marília.
-- Vamos lá. Não podemos perder a oportunidade de
ver o filho do grande Stewart
Granger.
Fizemos uma verdadeira investigação pelas ruelas,
voltamos à rua principal, à praça e... nada. Decepção.
-- Fica aqui fora enquanto eu entro nessa loja para
ver umas coisas – disse Marília. Quem sabe você ainda acaba vendo o tal... como
é mesmo o nome dele?
-- Vai, vai, entra na loja enquanto eu fico de olho.
Atravesso a praça a pé, entro em lojas, restaurantes,
nada! “Pareço até adolescente”—falei baixinho – “e o cara nem é famoso, o pai
dele é que era famoso e isso há muitos anos”. “Adolescente nada, acho é que
estou ficando velho. Besteira...”
Depois de vários minutos de observação, vejo um
senhor alto, forte, usando uma bermuda quadriculada, boné branco, com um rabo
de cavalo minúsculo que mal dava para amarrar, atravessando a rua, bem longe.
-- É ele, Marília, é ele. Desta vez não me escapa.
-- Vai logo. Realiza esse desejo enquanto eu vejo um
presentinho pra casa da Márcia, que vai mudar para a nova residência. Vai!
Saí dali fuzilando, mas com os olhos fitos naquela
figura que me trazia tantas lembranças da infância e adolescência. O Cine
Teatro Elda, seu Ismênio, na porta, recolhendo os ingressos da garotada; Zé
Quitiba sisudo conferindo a idade dos meninos; a gurizada trocando gibis. Lá
dentro, as músicas do Trio Irakitan, todas do LP “Boleros que Gostamos de
Cantar”. Orogildo abrindo as cortinas, o Canal 100, os trailers das chanchadas da Atlântida. Corro meio esbaforido com
esse turbilhão de lembranças. Ele entrou na casa lotérica da Caixa. Está lá
para pagar umas contas.
Emocionado, me aproximo devagar, o coração aos
saltos.
-- Você é o Jamie Stewart Granger? O filho do grande
Stewart Granger?
Ele não ouviu direito. O pessoal conversa alto. Deu
vontade de falar para todo mundo. “Sabem que este é o filho do grande ator de
Hollywood Stewart Granger?” Não adiantaria. Hoje ninguém aqui no Prado sabe
dessas coisas. Acho mesmo que a maioria dos brasileiros não sabe quem foi
Stewart Granger.
Agora ele se abaixa um pouco e responde com sotaque
americano e confirma. Sim, estou diante do filho de Stewart Granger. Digo que é
um prazer conhecê-lo, que queria ver se ele parecia mesmo com o pai. Ele me
aperta a mão e pergunta: “Pareço?” Digo que sim e encho-o de perguntas como se
fosse um repórter. “Como é ser filho de um grande ator como seu pai?” “Como
veio parar no Brasil?” Ele conversa comigo como se fôssemos amigos de longa
data. Fala da fama do pai. Diz que trabalhava muito e viajava muito também.
Muita fama, mas na época não ganhava tanto dinheiro com os atores de hoje. Fala
da mãe, Elspeth March, que atuava mais no teatro. Que seu pai se casou novamente
com a belíssima Jean Simmons e fez cerca de setenta filmes. Fala também do caso
dos terrenos, culpa a omissão do Incra e diz que as terras foram vendidas e revendidas nos últimos 25 anos e
que ninguém sabe quem são os donos originais. Comprou o dele de um advogado. Que
ficou chateado com a reportagem. É fotógrafo, está há trinta anos no Brasil e
há oito em Cumuruxatiba. Que investe muito para tornar o local bonito, um
paraíso. “Quando passar por lá, por favor, me visite.”
Despeço-me e saio feliz da casa lotérica. Conheci o
filho do grande Stewart Granger. Mais que isso, agora somos amigos. As imagens
da minha infância ainda pululam na minha cabeça. Enquanto tropeço na realidade
da calçada à minha frente, é difícil não pensar meio infantilmente: “Puxa, sou
amigo do filho do famoso Stewart Granger.”