Neemias Félix
Preocupa-me que (bons) cristãos estejam dizendo que têm orgulho disso ou daquilo, principalmente quando se referem à sua religião ou denominação.
Ainda que o dicionário registre acepções como “sentimento de prazer sobre algo que é visto como alto, honrável, creditável de valor e honra”, também é verdade que registra “sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba, imodéstia”, ao lado de “atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; vaidade, insolência”.
A dificuldade (ou impossibilidade) da desambiguação dos conceitos consiste, portanto, em perscrutar o mais íntimo do ser humano para conhecer exatamente o que diferencia uma disposição de outra, e isso é uma empreitada que nem mesmo a própria pessoa que abriga esse sentimento, pela sua dubiedade, é capaz de realizar. Jeremias 17.9 retrata bem as entranhas da motivação humana: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”.
Além de observar a ufania dos adesivos dos carros, vi, dias atrás, num dos sites de um famoso pastor televisivo, a palavra orgulho correndo solta em dezenas de comentários postados, a propósito de uma distinção honorífica que aquele pregador recebera na Câmara de Deputados, em Brasília. Sem questionar o mérito da outorga da honraria, que considero até justa, postei também meu comentário destoante, lembrando aos mais exaltados que um cristão do primeiro século, homônimo do homenageado, ao lado do apóstolo Paulo, recebera uma saraivada de açoites no calabouço, ao invés de comenda ou medalha.
Na Bíblia há inúmeras menções ao orgulho, sempre com valor negativo: “O orgulhoso de coração levanta contendas, mas o que confia no Senhor prosperará ((Pv 28.25)”; “Os olhos altivos, o coração orgulhoso e a lavoura dos ímpios é pecado (Pv 21.4)”; “A soberba precede a destruição, e a altivez do espírito precede a queda (Pv 16.18)”; “Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado (Mt 23:12)”.
Richard Baxter chama o orgulho de “o pecado do diabo” e “o primogênito do inferno”. A. W. Tozer nos aconselha a sondar com diligência o nosso íntimo; “mesmo se não acharmos nenhum resquício de orgulho”, diz ele, “ainda devemos duvidar”.
Certa vez João Batista, exemplo de humildade, foi cercado por líderes judaicos que se gabavam de sua raça e religião. O orgulho etnorreligioso deles irrompeu violento. Mais violenta, porém, foi a resposta de João: “E não vos orgulheis de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão (Lc 3.8)”.
Cristãos do primeiro século, que eram muito melhores do que nós, nunca inflaram o peito para dizer “temos orgulho de ser cristãos”. Ao contrário, em Antioquia, eles “foram chamados cristãos” (At 11.26). Certamente porque as pessoas viram que eles tinham estado com Cristo, porque eram discípulos dEle. Mais que professadores de Suas doutrinas ou recitadores de Seus ensinamentos, os discípulos eram identificados com Jesus, inclusive no sofrimento; eram Seus imitadores.
Não vejo qualquer vantagem em sentir orgulho pelo país ou cidade em que alguém nasceu, pelo time de futebol, pela cor da pele ou pela religião que se professa. Aquele que usa a palavra orgulho para expressar o sentimento de prazer a respeito de qualquer coisa, ou, ainda, dessa ou daquela religião/denominação, deveria, pelo menos, usar outras palavras, como, por exemplo, “tenho alegria de ser ou de fazer isso ou aquilo”.
Melhor ainda seria seguir o exemplo de Paulo, que nos coloca em nosso devido lugar com esta sentença: “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor (II Co 10.17)”.
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