Neemias Félix
Fico preocupado com certas afirmações que, de tão batidas ou pisadas, acabam se tornando, com o tempo, axiomas indiscutíveis e ganhando fumos de verdades absolutas. Ai de quem se atreve a questioná-las, muito menos contestá-las. Uma delas é a que diz que não se deve discutir futebol, política e religião.
Embora nunca tenha calçado uma chuteira, me filiado a nenhum partido político ou me formado em Teologia, tenho uma veia apologética pulsante e ouso contestar com veemência a máxima trifaciada mencionada acima. Todos os três assuntos podem ser discutidos, desde que haja respeito e cordialidade entre os debatedores. Atenho-me, por ora, a considerar apenas a discussão sobre a religião.
Como cristão, não posso esquecer que Jesus, aos doze anos, desprendeu-se dos pais e gastou tempo e argumentos com os doutores da lei, suplantando-os com sua sabedoria. O mesmo Jesus protagonizou, em várias ocasiões, debates acalorados com os fariseus, representantes de uma das facções mais fortes do judaísmo, e, numa delas, chegou a chamá-los de hipócritas e sepulcros caiados. Antes de subir ao céu, ele ordena aos discípulos que preguem o Evangelho e ensinem. Ora, como é possível pregar e ensinar sem tocar na fé professada pelos interlocutores, enfim, sem “discutir religião”?
A Bíblia registra Estêvão discutindo apaixonadamente com os seus próprios algozes antes de morrer apedrejado e mostra as várias discussões travadas por Paulo nas sinagogas judaicas. Usando uma palavra mais incisiva, diz que Paulo “disputava” nas ruas e nas praças com seus oponentes. No famoso discurso do areópago de Atenas, o apóstolo discorre sobre os fundamentos da fé cristã com argumentos bem conhecidos da dialética grega. Finalmente, em sua primeira carta, é Pedro quem nos estimula a estar sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós.
Como arrazoar sem confrontar? Como argumentar sem cotejar? Como cotejar sem comparar? E como fazer todas essas coisas sem discutir?
Discutir é imprescindível para se chegar a uma conclusão, para aclarar controvérsias e espancar dúvidas, para o convencimento, para a oportunidade de mudança de ideia, de opinião. Obstar a possibilidade de discutir qualquer assunto, por mais melindroso que seja, com o subterfúgio de que se deve “respeitar a religião dos outros”, é sufocar no ser humano a faculdade que mais o distingue dos seres brutos: o alvedrio, a sua capacidade de escolha e decisão. Foi exatamente essa a porta que fez a humanidade enfurnar-se no terrível obscurantismo da Idade das Trevas, nos inextricáveis e sombrios labirintos da Inquisição.
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