Neemias Félix
Conscientização já era palavra da moda em 1976, quando comecei a lecionar. “É preciso haver conscientização”, “Esses alunos precisam se conscientizar...“ eram frases ouvidas aqui e ali com muita frequência na escola.
Não sei se os colegas tinham consciência de que a palavra possuía forte conotação política e psicanalítica. Àquela época, mais por reação contra a ditadura reinante do que por ideologia, era natural que “todo mundo ficasse meio à esquerda”, como diria um amigo meu, ledor, reledor e pouco entendedor, como eu, do Das Kapital, de Marx. Suspeito que pensavam mesmo mais na acepção comum da palavra.
Coube à Arlêne Campos (eta Arlêne!) lançar dúvida sobre o abuso da palavrinha enjoada. Certa ocasião, com a inteligente ironia que lhe é peculiar, depois de um eloquente e preguiçoso meneio de cabeça, dois resmungos e a fleuma quase chinesa dos sábios, sentenciou: “Huumm, se conscientização valesse, médico não fumava nem bebia...”
Guardei a reflexão no coração. Anos mais tarde, já frequentador assíduo das reuniões do A.A., o relato de seu co-fundador Bill W. abriu uma clareira no cipoal do meu entendimento. Num de seus livros, esse homem que era um alcoólico crônico, falido em todas as áreas da vida, com inúmeras internações hospitalares, conta a sua experiência sobrenatural ocorrida no dia em que parou de beber. Bill, que era ateu, já tinha lido “Variedades da experiência religiosa”, do psicólogo e filósofo William James. Segundo James, as experiências espirituais poderiam ter realidade objetiva, quase do mesmo modo como as dádivas do céu poderiam transformar as pessoas. E foi assim que o co-fundador do A.A., numa depressão profunda, viu esmagada a sua orgulhosa obstinação. De repente, ele se encontrou exclamando no quarto do hospital: “Se existe um Deus, que ele se manifeste! Estou pronto para fazer qualquer coisa, qualquer coisa!”
Bill continua, na página 57 do Livro “O A.A. completa a maioridade”:
“De repente, o quarto se encheu de uma forte luz. Mergulhei-me num êxtase que não há palavras para descrever. Pareceu-me, com os olhos da minha mente, que eu estava numa montanha e que soprava um vento, não de ar, mas de espírito. E aí tive a sensação de que era um homem livre. Lentamente o êxtase passou. Eu estava na cama, mas agora por instantes me encontrava em outro mundo, um mundo novo de conscientização [grifo meu]. Ao meu redor e dentro de mim, havia uma maravilhosa sensação de presença, e pensei comigo mesmo: ‘Então, esse é o Deus dos pregadores!’ Uma grande paz tomou conta de mim e pensei: ‘Não importa quão erradas as coisas pareçam ser, elas ainda são certas. As coisas são certas com Deus e Seu mundo’.”
Ouvir essa experiência da boca de uma pessoa cristã é algo comum. Podemos até correr o risco de banalizá-la a ponto de tirar-lhe o devido valor. Ouvi-la de um ateu, porém, deve deixar o mais cético dos mortais, no mínimo, desconfortado. Principalmente se considerarmos que isso aconteceu no fim de 1934 e que Bill W. morreu em 1971, sem ingerir uma única gota de álcool em 36 anos.
Não se pode ignorar o fato de que educação e disciplina podem fazer muito na formação moral do ser humano e servir como um freio dos seus instintos naturais e compulsões. Há situações, porém, em que é preciso quedar-se numa total rendição ao Intangível e dar o imprescindível salto ao transcendente, sem o qual serão baldados todos os esforços dos reles mortais.
Quem se der ao trabalho, penoso para alguns, de ler, no Evangelho de João, o famoso diálogo com Nicodemos, membro do Sinédrio, vai ouvir Jesus falando em novo nascimento e na ação misteriosa e imperscrutável do Espírito Santo: “O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (João 3.8).
Quem já leu sobre a transformação do apóstolo Paulo no livro de Atos sabe do que estou falando. Impossível o culto assecla da seita mais renitente do judaísmo, o perseguidor dos cristãos sofrer uma transformação tão radical a ponto de morrer por aquele a quem perseguia apenas como resultado de conscientização. Tal metamorfose não pode ser fruto de uma simples mudança de partido, de religião ou de denominação. Aliás, Bill W., para não transformar o A.A. num refém a serviço de agremiações religiosas, nunca se filiou a nenhuma delas.
A amiga e colega Arlêne estava coberta de razão. Modestamente espero ter sintetizado o complemento do seu pensamento nesta exposição. “Há muito mais entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”, já dizia Shakespeare. A frase é batida, mas não deixa de ser pertinente, oportuna e categórica.
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