sexta-feira, 25 de março de 2011

A Ditadura do Corpo e Seus Efeitos

Neemias Félix

Creio que foi na década de 1980 que se instalou ou talvez recrudesceu a ditadura do corpo no País. De lá para cá, nunca se viu tanta preocupação com esse – muitos esquecem – invólucro da alma humana.

É possível que alguém use a máxima de Juvenal – mens sana in corpore sano - para justificar essa febre que, aliás, está intimamente ligada à sua irmã gêmea – a febre da imagem. Mas quem usa a citação do poeta romano para justificar a correria louca pela perfeição física, parece esquecer que, na sentença tão batida, mens aparece antes de corpore, o que deve sugerir que os cuidados com a mente devem ter precedência sobre a preocupação com o corpo. Esses body worshippers (adoradores do corpo), no entanto, invertem a ordem de importância dos elementos da frase, achando talvez que uma mente sã seja a consequência natural de um corpo malhado.

Os efeitos dessa distorção afetam várias áreas da atividade humana. Para ficar em uma só, basta que nos detenhamos nesta: a arte, de modo geral.

Nas telenovelas há uma renovação contínua de rostos jovens e bonitos e corpos sarados, numa sucessão alucinante. Na música, não raras vezes, a coreografia e o mover do uropígio em requebros sensuais substituem a beleza e técnica vocais. Nas letras, uma festa de banalidade e vaziez. Se nada têm a dizer no que concerne ao conteúdo poético e criativo, no que tange à sensualidade gratuita e deslavada, são capazes de excitar desde blocos de gelo a estátuas. Isso quando não caem na vulgaridade da pornografia e da pornofonia desavergonhadas.

Descobre-se nos autores uma capacidade ao mesmo tempo mágica e química de produção. Mágica por produzirem nada de nada; química por transformarem qualquer material em excremento. Como, porém, um tolo sempre encontra outro que o admira, há sempre ouvidos fiéis dispostos a consumir cacofagicamente todo esse lixo produzido. Pior: pagar por ele, enriquecer seus autores e fomentar a indústria de empobrecimento cultural. Faz lembrar o famoso FEBEAPÁ, sigla criada pelo jornalista e compositor Stanislau Ponte Preta para designar o “Festival de Besteiras que Assola o País”.

Na comunicação, principalmente dos jovens e adolescentes, nunca se viu algo tão primitivo. Se pegam uma maquininha eletrônica, como um celular, por exemplo, são mestres em fuçar e descobrir recursos complexos e funções inimagináveis com as pontas dos dígitos. Falam em bytes, pixels, chips, ipods, tablets e quejandos com a gigacompetência de um PHD. Na hora de articular uma simples frase com sujeito, predicado e complemento, com alguma coerência, perdem-se num emaranhado de “pô”, “né?”, “massa”, “caô” e similares. Comunicam-se usando um tartamudear primitivo, com orações quebradas, inconclusas e pensamentos suspensos, o que nos obriga a malabarismos divinatórios para descobrir o que querem dizer.

Nada contra o exercício físico saudável e a preocupação com um corpo hígido e bem cuidado. A sofreguidão de um “sarado” pelo modelo exterior inatingível, entretanto, pode esconder uma mente do tamanho de um grão de arroz ou de um chip e a profundidade de uma casca de lima. Fosse qual fosse a intenção de Juvenal ao produzir a célebre expressão transformada em máxima inquestionável, certamente essa não era a de estimular a forma perfeita num boneco obtuso e descerebrado.

Um comentário:

  1. "Descobre-se nos autores uma capacidade ao mesmo tempo mágica e química de produção" foi ótimo! rsrsr :D

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