Neemias Félix
Antes da minha conversão, participei por uns quatro
anos de um grupo de A.A. Para quem não sabe, A.A. é a abreviatura de Alcoólicos
Anônimos, uma irmandade de homens e mulheres que buscam não apenas parar de
beber, mas sobretudo permanecer sóbrios.
Com a graça de Deus nos meus calcanhares desde
aquela época, ficava admirado com a simplicidade da estrutura e funcionamento
desses grupos de ajuda mútua e me perguntava como podiam ter crescido tanto.
Estávamos no início da década de 1980. O A.A., fundado em 1935, já estava
presente em mais de 120 países com cerca de 70.000 grupos. Mal suspeitava eu que
um dos segredos desse crescimento era exatamente a sua simplicidade.
Quando a graça me subiu ao coração, senti-me
envolvido por uma necessidade, um desejo incontido de participar de uma igreja,
o que deve ser natural em todo cristão. Lembro-me, porém, de repetir esta frase
com muita frequência: “Preciso participar de uma ‘agremiação religiosa’ (essa
era a expressão que eu usava), mas ela deve ser simples assim, como o A.A”.
Quem entrar numa sala de A.A., invariavelmente
alugada, vai encontrar algo mais ou menos assim: um coordenador que, sentado à
mesa, em certos momentos, dá algumas orientações ou informações; um grupo de
pessoas sentadas em cadeiras ou bancos. (Em certos lugares, não há nem mesa,
mas apenas um círculo formado pelos participantes). O coordenador convida então
algumas pessoas para se levantar, uma por vez, e dar o que chamam de depoimento. Com muita simplicidade, elas
falam de quando bebiam e de como estão vivendo sem beber. Isso dura uns dez
minutos. Ao terminar, são aplaudidas e voltam aos seus assentos. No intervalo
da reunião, que dura entre uma hora e meia e duas horas, é servido um cafezinho
simples, regado por uma conversa alegre e descontraída. Esse também é o momento
da passada da “sacolinha”. O coordenador faz questão de enfatizar que só devem
contribuir aqueles que são membros do grupo ou da irmandade. Pingam então
moedas e notas de pequeno valor. É o suficiente para o grupo cuidar da
manutenção da sala, pagar o café, o aluguel e a literatura, que é distribuída
àqueles que vão se agregando ao grupo. Simples assim.
O A.A. não faz propaganda de si mesmo; espera que os
outros a façam. Busca, entretanto, aqueles que querem parar de beber, o que seus membros chamam de “abordagem” ou “prática
do décimo-segundo passo”. A irmandade, como dizem seus membros, prefere “a
atração à promoção”. Seu “preâmbulo”, que aparece em toda a sua literatura, é
muito claro: o A.A. não se envolve em controvérsias públicas, não está ligado a
nenhuma seita ou religião, a nenhum movimento político, a nenhuma organização
ou instituição. O anonimato é uma tradição fundamental. Não recebe contribuição
financeira de fontes externas; ao contrário, deixa claro: “somos
autossuficientes graças às nossas próprias contribuições”. Não admira que não
se ouçam notícias sobre corrupção e falcatruas em seus arraiais nesses quase 80
anos de existência.
Observando a trajetória da igreja cristã nos últimos
mil e setecentos anos, período em que ela se transformou numa instituição pesada,
com características tão seculares como as de uma empresa multinacional, já nem
ouso sugerir uma volta à estrutura, aos princípios e às práticas da igreja
primitiva. Sugeriria, entretanto, que, feitas
as devidas ressalvas, já que o A.A. não é e nunca pretendeu ser uma igreja ou
substituí-la, que as igrejas institucionais aprendessem com essa irmandade as
lições relativas à sua simplicidade e organização funcional, até porque muito
do que esses grupos põem em prática está nos encontros das comunidades cristãs
do primeiro século.
Não foi por acaso, inclusive, que o A.A. recebeu, no
início de sua formação, contribuições importantíssimas de religiosos, como o
jesuíta Edward Dowling e o pastor da Igreja Episcopal, Dr. Samuel Shoemaker. E é irônico que provavelmente esses homens
nunca tenham posto em prática a simplicidade, a leveza e a funcionalidade
desses grupos em suas próprias igrejas.
Se as igrejas institucionais aprendessem um pouco com
o A.A., teriam muito a ganhar em crescimento qualitativo e organicidade, sem
falar na prevenção de problemas relacionados a poder e ambição, tentações que existem desde que os olhos de Eva saltaram de
suas órbitas diante da árvore do Conhecimento.
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