sábado, 17 de março de 2012

O que a igreja institucional deveria aprender com o A.A.


Neemias Félix

Antes da minha conversão, participei por uns quatro anos de um grupo de A.A. Para quem não sabe, A.A. é a abreviatura de Alcoólicos Anônimos, uma irmandade de homens e mulheres que buscam não apenas parar de beber, mas sobretudo permanecer sóbrios.

Com a graça de Deus nos meus calcanhares desde aquela época, ficava admirado com a simplicidade da estrutura e funcionamento desses grupos de ajuda mútua e me perguntava como podiam ter crescido tanto. Estávamos no início da década de 1980. O A.A., fundado em 1935, já estava presente em mais de 120 países com cerca de 70.000 grupos. Mal suspeitava eu que um dos segredos desse crescimento era exatamente a sua simplicidade.

Quando a graça me subiu ao coração, senti-me envolvido por uma necessidade, um desejo incontido de participar de uma igreja, o que deve ser natural em todo cristão. Lembro-me, porém, de repetir esta frase com muita frequência: “Preciso participar de uma ‘agremiação religiosa’ (essa era a expressão que eu usava), mas ela deve ser simples assim, como o A.A”.

Quem entrar numa sala de A.A., invariavelmente alugada, vai encontrar algo mais ou menos assim: um coordenador que, sentado à mesa, em certos momentos, dá algumas orientações ou informações; um grupo de pessoas sentadas em cadeiras ou bancos. (Em certos lugares, não há nem mesa, mas apenas um círculo formado pelos participantes). O coordenador convida então algumas pessoas para se levantar, uma por vez, e dar o que chamam de depoimento. Com muita simplicidade, elas falam de quando bebiam e de como estão vivendo sem beber. Isso dura uns dez minutos. Ao terminar, são aplaudidas e voltam aos seus assentos. No intervalo da reunião, que dura entre uma hora e meia e duas horas, é servido um cafezinho simples, regado por uma conversa alegre e descontraída. Esse também é o momento da passada da “sacolinha”. O coordenador faz questão de enfatizar que só devem contribuir aqueles que são membros do grupo ou da irmandade. Pingam então moedas e notas de pequeno valor. É o suficiente para o grupo cuidar da manutenção da sala, pagar o café, o aluguel e a literatura, que é distribuída àqueles que vão se agregando ao grupo. Simples assim.
O A.A. não faz propaganda de si mesmo; espera que os outros a façam. Busca, entretanto, aqueles que querem parar de beber, o que seus membros chamam de “abordagem” ou “prática do décimo-segundo passo”. A irmandade, como dizem seus membros, prefere “a atração à promoção”. Seu “preâmbulo”, que aparece em toda a sua literatura, é muito claro: o A.A. não se envolve em controvérsias públicas, não está ligado a nenhuma seita ou religião, a nenhum movimento político, a nenhuma organização ou instituição. O anonimato é uma tradição fundamental. Não recebe contribuição financeira de fontes externas; ao contrário, deixa claro: “somos autossuficientes graças às nossas próprias contribuições”. Não admira que não se ouçam notícias sobre corrupção e falcatruas em seus arraiais nesses quase 80 anos de existência.

Observando a trajetória da igreja cristã nos últimos mil e setecentos anos, período em que ela se transformou numa instituição pesada, com características tão seculares como as de uma empresa multinacional, já nem ouso sugerir uma volta à estrutura, aos princípios e às práticas da igreja primitiva.  Sugeriria, entretanto, que, feitas as devidas ressalvas, já que o A.A. não é e nunca pretendeu ser uma igreja ou substituí-la, que as igrejas institucionais aprendessem com essa irmandade as lições relativas à sua simplicidade e organização funcional, até porque muito do que esses grupos põem em prática está nos encontros das comunidades cristãs do primeiro século.

Não foi por acaso, inclusive, que o A.A. recebeu, no início de sua formação, contribuições importantíssimas de religiosos, como o jesuíta Edward Dowling e o pastor da Igreja Episcopal, Dr. Samuel Shoemaker.  E é irônico que provavelmente esses homens nunca tenham posto em prática a simplicidade, a leveza e a funcionalidade desses grupos em suas próprias igrejas.

Se as igrejas institucionais aprendessem um pouco com o A.A., teriam muito a ganhar em crescimento qualitativo e organicidade, sem falar na prevenção de problemas relacionados a poder e ambição, tentações que  existem desde que os olhos de Eva saltaram de suas órbitas diante da árvore do Conhecimento.




  

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