Neemias Félix
Que
o amor não é apenas sentimento parece ser ponto pacífico entre todos aqueles
que tentam atinar com o sentido dessa palavra tão profunda quanto indefinível.
O amor quase sempre envolve sentimento,
ou, pelo menos, pode ser envolvido pelos mais variados níveis de emoção. É
possível, porém, realizar ações concretas de amor sem derramar uma única
lágrima. É assim que ele se manifesta na prática, sem necessidade de
melifluidade ou pieguice.
Uma
admoestação firme, uma correção severa para impedir que uma pessoa se perca nos
seus descaminhos não deixa de ser um ato de amor e cumpre o que diz Hebreus
12.6: “Deus corrige a quem ama e castiga todo aquele a quem aceita como filho”.
Passar a mão na cabeça de alguém que está prestes a cair em desgraça não é amar,
é omitir-se, por mais que isso seja regado a lágrimas sinceras.
Como
a Bíblia não define exatamente o que é o
amor, como fazem os dicionários, mas mostra os seus atributos e
características, algumas delas aparentemente inconciliáveis, como “tudo
suporta” e “não se alegra com a injustiça”, ele ganha ares de algo profundo e
misterioso, o que nos deixa em dúvida quanto a certas atitudes que tomamos na
fria realidade do nosso dia a dia.
Proponho,
pois, a seguinte questão: é possível haver amor em meio à má vontade? E ilustro
isso com o seguinte caso concreto:
Estou
eu concentrado nas minhas profundas reflexões existenciais, tentando parir
alguma ideia digna de ser lavrada na alva e ansiosa tela do meu circunspecto notebook, quando sou convocado pela
minha mulher para a tarefa mais desagradável do mundo: lavar o trovão cinza, mais cinza do que o
normal, porque parece que toda a poeira do mundo resolveu depositar-se na
outrora reluzente lataria do nosso Siena.
No
meu levantar, reúno o sobrecenho franzido, a cara amarrada e o máximo da má
vontade. Irreprimível. Indisfarçável.
Mas
vou. Vou e faço o melhor que posso entre resmungos e muxoxos. No final do
holocausto, digo, da tarefa, até admiro a boa obra realizada, ainda que sob a
mais tremenda indisposição, e chego até a sorrir pensando que a empreitada
poderia ter sido pior, nesse caso, arrancar raízes de aipim na plantação do quintal
dos fundos.
E
aí? Houve amor na minha boa ação? Paulo diz que ainda que desse seu corpo para
ser queimado, se não tivesse amor, nada disso se aproveitaria. Logo, minha
ação, sob o ponto de vista da motivação, redundaria em nada. Nada? Mas como, se
a tarefa foi realizada, afinal, e todos pudemos ir ao casamento com o carro
limpinho e bem apresentável?
A
meu favor talvez apenas aquela parábola dos dois filhos contada por Jesus. Ele
diz que o pai ordenou a dois filhos que fossem ao campo. O primeiro disse que
iria e não foi. O segundo, entretanto, disse que não iria, mas foi. O segundo
foi elogiado porque, apesar da negativa inicial, obedeceu à ordem dada.
No
meio desse turbilhão de ideias meio desencontradas, não deixo de pensar ainda
no meu cunhado que lava o carro com o maior prazer. Sabe aquele sujeito que
gasta duas horas nessa tarefa e, no finalzinho, ainda joga aquele bafo no
retrovisor para a última esfregada e a termina orgasticamente feliz? É ele.
Gostaria de ser assim, mas não sou. No entanto, quem deu mais de si, quem se
esforçou, se sacrificou mais para agradar à amada, mesmo contra a vontade? É
como aquele pianista que tem o dom de tocar e faz isso aos três, quatro anos de
idade, muito bem, enquanto outro, já adulto, estuda horas e horas por dia para
conseguir uma apresentação apenas digna.
Difícil
classificar algumas ações como virtude
ou pecado em certas situações, não é?
E enquanto me puno por pensar em não ter praticado um gesto com o amor que
deveria, consolo-me um pouco ao ouvir a voz de Davi, em II Sm 24.24: “Jamais darei
ao meu Senhor holocaustos que não me custem nada”. Enfim, melhor deixar essas
coisas para os teólogos de plantão. Melhor ainda, para o próprio Deus.
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