quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AMOR E MÁ VONTADE

Neemias Félix

Que o amor não é apenas sentimento parece ser ponto pacífico entre todos aqueles que tentam atinar com o sentido dessa palavra tão profunda quanto indefinível. O amor quase sempre envolve sentimento, ou, pelo menos, pode ser envolvido pelos mais variados níveis de emoção. É possível, porém, realizar ações concretas de amor sem derramar uma única lágrima. É assim que ele se manifesta na prática, sem necessidade de melifluidade ou pieguice.

Uma admoestação firme, uma correção severa para impedir que uma pessoa se perca nos seus descaminhos não deixa de ser um ato de amor e cumpre o que diz Hebreus 12.6: “Deus corrige a quem ama e castiga todo aquele a quem aceita como filho”. Passar a mão na cabeça de alguém que está prestes a cair em desgraça não é amar, é omitir-se, por mais que isso seja regado a lágrimas sinceras.

Como a Bíblia não define exatamente o que é o amor, como fazem os dicionários, mas mostra os seus atributos e características, algumas delas aparentemente inconciliáveis, como “tudo suporta” e “não se alegra com a injustiça”, ele ganha ares de algo profundo e misterioso, o que nos deixa em dúvida quanto a certas atitudes que tomamos na fria realidade do nosso dia a dia.

Proponho, pois, a seguinte questão: é possível haver amor em meio à má vontade? E ilustro isso com o seguinte caso concreto:

Estou eu concentrado nas minhas profundas reflexões existenciais, tentando parir alguma ideia digna de ser lavrada na alva e ansiosa tela do meu circunspecto notebook, quando sou convocado pela minha mulher para a tarefa mais desagradável do mundo: lavar o trovão cinza, mais cinza do que o normal, porque parece que toda a poeira do mundo resolveu depositar-se na outrora reluzente lataria do nosso Siena.

No meu levantar, reúno o sobrecenho franzido, a cara amarrada e o máximo da má vontade. Irreprimível. Indisfarçável.

Mas vou. Vou e faço o melhor que posso entre resmungos e muxoxos. No final do holocausto, digo, da tarefa, até admiro a boa obra realizada, ainda que sob a mais tremenda indisposição, e chego até a sorrir pensando que a empreitada poderia ter sido pior, nesse caso, arrancar raízes de aipim na plantação do quintal dos fundos.

E aí? Houve amor na minha boa ação? Paulo diz que ainda que desse seu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso se aproveitaria. Logo, minha ação, sob o ponto de vista da motivação, redundaria em nada. Nada? Mas como, se a tarefa foi realizada, afinal, e todos pudemos ir ao casamento com o carro limpinho e bem apresentável?

A meu favor talvez apenas aquela parábola dos dois filhos contada por Jesus. Ele diz que o pai ordenou a dois filhos que fossem ao campo. O primeiro disse que iria e não foi. O segundo, entretanto, disse que não iria, mas foi. O segundo foi elogiado porque, apesar da negativa inicial, obedeceu à ordem dada.

No meio desse turbilhão de ideias meio desencontradas, não deixo de pensar ainda no meu cunhado que lava o carro com o maior prazer. Sabe aquele sujeito que gasta duas horas nessa tarefa e, no finalzinho, ainda joga aquele bafo no retrovisor para a última esfregada e a termina orgasticamente feliz? É ele. Gostaria de ser assim, mas não sou. No entanto, quem deu mais de si, quem se esforçou, se sacrificou mais para agradar à amada, mesmo contra a vontade? É como aquele pianista que tem o dom de tocar e faz isso aos três, quatro anos de idade, muito bem, enquanto outro, já adulto, estuda horas e horas por dia para conseguir uma apresentação apenas digna.

Difícil classificar algumas ações como virtude ou pecado em certas situações, não é? E enquanto me puno por pensar em não ter praticado um gesto com o amor que deveria, consolo-me um pouco ao ouvir a voz de Davi, em II Sm 24.24: “Jamais darei ao meu Senhor holocaustos que não me custem nada”. Enfim, melhor deixar essas coisas para os teólogos de plantão. Melhor ainda, para o próprio Deus.





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