Neemias Félix
Conheci Benvindo Feregueti no finzinho de 1969.
Tinha eu 15 anos e trabalhava na Casa do Ciclista, uma loja de peças para
bicicleta. Seu Benvindo, como era conhecido, tinha uma lanchonete bem montada,
na avenida João Felipe Calmon, em frente ao Banco de Crédito Real.
Lembro-me bem daquele senhor sorridente e simpático,
cabelo indefectivelmente penteado, torcedor do Fluminense, de finíssimo humor.
Era um grande gozador, mas de uma ironia sutil e elegante, capaz de se sair bem
em qualquer situação desfavorável, principalmente diante de torcedores
fanáticos, tanto vascaínos quanto flamenguistas.
E foi assim que, garoto tímido, entrei na lanchonete
certo dia para um lanche, coisa que se tornaria habitual dali para frente.
-- Um guaraná e um pastel, por favor -- fiz o pedido
com os olhos baixos, o máximo que a minha terrível timidez permitia naqueles
tempos adolescentes.
-- Você quer de camarão ou de azeitona?
Demorei apenas três segundos para responder.
-- De camarão, por favor.
Seu Benvindo põe no balcão o guaraná e um pires com
o pastel. Bastou uma mordida para perceber o gosto característico de carne de
boi. Mesmo assim, eu ainda abro o pastel, fecho um olho e confirmo: nada de
camarão! Pensei logo: “Ora, isso é apenas boi
ralado" -- expressão usada para nomear a carne moída. Não reclamei, mas
engoli o lanche meio a contragosto. É claro que ele deve ter-se enganado.
Afinal, com tantos fregueses...
Dois dias depois, a cena se repete. Guaraná, pastel,
e lá vem a mesma pergunta sobre o tipo de pastel desejado. Repito mais uma vez
a minha preferência e novamente o
bendito pastel com carne moída. Nenhuma reclamação.
Na terceira vez, já vou com um pé atrás. O diálogo é
aquela ladainha:
--- Um guaraná e um pastel, por favor. “Já sei qual
é a pergunta” – penso com meus botões. E ela não demora:
-- Quer de camarão ou de azeitona?
“Desta vez a cantiga é diferente” – penso rápido.
“Vou mudar o pedido pra ver no que dá”:
-- Quero de azeitona.
-- Boa escolha – diz Seu Benvindo, sorriso mais que
maroto nos lábios fluminensíssimos.
Abro o pastel e vejo mais uma vez aquele pequeno
túnel com rastros claros de carne moída no seu “chão”. “Desta vez eu vou reclamar.
Tenho que ter coragem. Vou dizer, sim, por que não? Não posso deixar passar.”
Aprumo o corpo, reúno toda a coragem e começo a
falar, tropeçando nas palavras.
-- Seu Benvindo, o senhor me desculpe, mas, dias
atrás, pedi pastel de camarão e veio de carne moída; anteontem pedi novamente de camarão e novamente o senhor me
trouxe de carne moída. Hoje resolvi, de propósito, mudar e pedi de azeitona. E
o senhor me traz novamente de carne moída... Afinal, o que está acontecendo?
-- Ah, meu filho. Esqueci de te avisar: Camarão era o nome do boi, e Azeitona era o nome da vaca.
Tive que rir da espirituosidade daquele senhor tão
bonachão. Além de ganhar um amigo, a partir daquele dia seu Benvindo ganhou um
fã.
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