Neemias Félix
“Dar exemplo não é a melhor maneira de educar; é a
única.”
A frase é quase perfeita. Quase? Como contestar
alguém da envergadura do grande teólogo, filósofo, médico e missionário Albert
Schweitzer, autor desse primor de pensamento?
Eu explico. Seria perfeita e de
valor absoluto se uma certa Dilma não fosse capaz de derrubar qualquer
intelectual consagrado. Não, não me refiro à Presidente. Refiro-me à Dilma que
poucos conhecem, minha empregada há quase dois anos.
Havia já algum tempo que eu vinha percebendo
que a dita cuja nunca dava aquela primeira varrida na área onde é servido o
café. Repetindo sempre a cantilena de que ia lavar a área mais tarde, jamais
fazia essa tarefa, deixando-me sem entender como alguém seria incapaz de enxergar
algo tão natural, tão óbvio, até aos olhos do observador menos exigente.
Foi então que, lembrando-me da famosa
frase, decidi pôr em prática o ensino do grande educador. Pegando a vassoura
com toda a humildade e realizando a tarefa com o esmero de alguém que queria ser
imitado, lá estava eu no meu nobre papel de educador pelo exemplo.
Os dias e os meses foram passando e
eu já não escondia a ansiedade de ver a Dilma fazendo aquela tarefa tão
simples, tão básica na vida de uma empregada doméstica.
Nada. Para minha decepção, não conseguia
vislumbrar o menor sinal de aprendizagem.
Fui abandonando então aos poucos a minha
malfadada estratégia pedagógica e deixando a área com suas folhas, seus
papeizinhos e seus cocôs de taruíra. Da parte dela, nenhuma reação.
Um dia, minha esperança voltou. Dilma
estava olhando fixamente o piso, absorta em seus pensamentos. Pensei logo: “A
ficha caiu. Ela finalmente aprendeu a lição! Viva Albert Schweitzer! Ele tinha
razão. É isso aí: educar só pelo exemplo!”
Ela saiu do transe, olhou-me
fixamente.
‒‒ Seu Neemias...
Animei-me mais ainda. “É agora”,
pensei, “a coroação de todo o meu esforço”.
Aí ela sapecou:
‒‒ O senhor já percebeu que há muito
tempo não varre a área aqui de fora? O senhor varria tão bem!...
Segurei, com grande esforço, uma
imprecação e saí fuzilando.
Continuo achando que Albert Schweitzer
pode ter razão em noventa e nove por cento dos casos. Menos no da Dilma. E que
o ditado mais adequado para situações como essa é o que a minha mãe, que nunca
foi à escola, gostava de usar: “Quem muito se abaixa, o fundilho aparece.”
Neemias, você é um gênio, cara! Formidável a sua crônica. Adoreeeeei! Amplexão. Norma Astréa
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