sábado, 26 de janeiro de 2013

ENTRE DILMA E SCHWEITZER


Neemias Félix

“Dar exemplo não é a melhor maneira de educar; é a única.”

A frase é quase perfeita. Quase? Como contestar alguém da envergadura do grande teólogo, filósofo, médico e missionário Albert Schweitzer, autor desse primor de pensamento?

Eu explico. Seria perfeita e de valor absoluto se uma certa Dilma não fosse capaz de derrubar qualquer intelectual consagrado. Não, não me refiro à Presidente. Refiro-me à Dilma que poucos conhecem, minha empregada há quase dois anos.

Havia já algum tempo que eu vinha percebendo que a dita cuja nunca dava aquela primeira varrida na área onde é servido o café. Repetindo sempre a cantilena de que ia lavar a área mais tarde, jamais fazia essa tarefa, deixando-me sem entender como alguém seria incapaz de enxergar algo tão natural, tão óbvio, até aos olhos do observador menos exigente.

Foi então que, lembrando-me da famosa frase, decidi pôr em prática o ensino do grande educador. Pegando a vassoura com toda a humildade e realizando a tarefa com o esmero de alguém que queria ser imitado, lá estava eu no meu nobre papel de educador pelo exemplo.

Os dias e os meses foram passando e eu já não escondia a ansiedade de ver a Dilma fazendo aquela tarefa tão simples, tão básica na vida de uma empregada doméstica.

Nada. Para minha decepção, não conseguia vislumbrar o menor sinal de aprendizagem.

Fui abandonando então aos poucos a minha malfadada estratégia pedagógica e deixando a área com suas folhas, seus papeizinhos e seus cocôs de taruíra. Da parte dela, nenhuma reação.

Um dia, minha esperança voltou. Dilma estava olhando fixamente o piso, absorta em seus pensamentos. Pensei logo: “A ficha caiu. Ela finalmente aprendeu a lição! Viva Albert Schweitzer! Ele tinha razão. É isso aí: educar só pelo exemplo!”

Ela saiu do transe, olhou-me fixamente.

‒‒ Seu Neemias...

Animei-me mais ainda. “É agora”, pensei, “a coroação de todo o meu esforço”.

Aí ela sapecou:

‒‒ O senhor já percebeu que há muito tempo não varre a área aqui de fora? O senhor varria tão bem!...

Segurei, com grande esforço, uma imprecação e saí fuzilando.

Continuo achando que Albert Schweitzer pode ter razão em noventa e nove por cento dos casos. Menos no da Dilma. E que o ditado mais adequado para situações como essa é o que a minha mãe, que nunca foi à escola, gostava de usar: “Quem muito se abaixa, o fundilho aparece.”

Um comentário:

  1. Neemias, você é um gênio, cara! Formidável a sua crônica. Adoreeeeei! Amplexão. Norma Astréa

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