A BEM DA VERDADE DENOTATIVA
(1)
Neemias Félix
Certas
frases feitas, verdadeiros chavões da cultura comum, quando submetidas a uma
análise mais criteriosa, mostram que as figuras de linguagem, como a metonímia,
por exemplo, são muito importantes para a literatura, mas pouco úteis para as questões
práticas da vida. Aqui vão alguns exemplos:
1. “As
estradas estão muito perigosas.” Tirante os buracos e as curvas
desnecessárias, na verdade, perigoso mesmo é quem está atrás do volante. A
estrada quando está lá, quietinha, não faz mal a ninguém.
2. “As drogas são uma praga.”
Alguém já viu
a droga, sozinha, entrar no organismo de alguém? Na verdade, é a pessoa que
cheira, fuma, injeta a droga no próprio corpo. A droga, sem a ação humana, não
faz mal a ninguém.
3. “A sociedade, a condição
social em que vivia, levaram-no a cometer esse crime...” Na verdade, a sociedade, as
péssimas condições de vida, os amigos podem
influenciar alguém; a decisão de fazer ou de deixar de fazer alguma coisa é
sempre uma decisão do homem, prova disso é o fato de miseráveis moradores de
rua devolverem vinte mil reais a seus donos. Numa entrevista, o homem disse que
os princípios morais que recebeu dos pais foram determinantes para a decisão
que tomou.
4. “Todos contra a dengue!”,
“Vamos acabar com o mosquito da dengue!” Vamos, sim, é claro, mas vamos acabar também
com o irresponsável que deixa caixas d’água e outros reservatórios abertos para
os mosquitos (que não pensam) colocarem seus ovos e proliferarem...
5. “Precisamos deter essa
escalada de violência.” Na verdade, nem toda violência é ruim. Certa vez, meu irmão e eu
tivemos de reprimir com violência um certo parente bêbado enlouquecido que
queria pôr minha porta abaixo. Apliquei-lhe uma chave de braço, derrubei-o,
amarramo-lo com cordas e chamamos a polícia. A violência foi providencial. O
policial que defende o cidadão de bem às vezes também pratica um ato de
violência, como o ladrão que atira contra a sua vítima. A diferença é o valor
moral das duas ações.
6. “Precisamos reestudar a
questão do desarmamento.” Alguém já viu arma de fogo atirar sozinha? Na Suíça, quando o jovem
completa vinte anos, recebe um rifle e treinamento especial. É claro que não é
para sair atirando pra todo lado, o objetivo é defender a sua casa, a sua
família, um direito mais que natural. Facas, facões, porretes podem ser armas
poderosas. O problema, porém, não está na arma em si, mas na pessoa que a carrega. Aliás, das armas
utilizadas nos crimes, quantas são devidamente registradas? Desarmar a
população também foi a estratégia de Hitler e outros ditadores de regimes
totalitários para dominar o povo inerme.
7. “Precisamos pensar, antes
de tudo, na ressocialização do preso.” Erro crasso. Precisamos, antes de tudo, proteger os
cidadãos de bem, que não cometerem crimes e já estão sofrendo as consequências
de serem vítimas de quem transgrediu a lei, por favor, não inverta as coisas.
Em seguida, devemos punir o infrator, e a punição deve se retributiva, sempre
que possível. Depois, só depois se deve pensar em ressocialização. Precisamos
de leis duras, penas duras, para desestimular o crime. Deu certo em Nova Iorque
com o Tolerância Zero, que de 1994 a 2002 reduziu a criminalidade em quase 60%;
tem dado certo em Cingapura.
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