Neemias Félix
Ele
é sub-reptício e subliminar, por isso sua ação é mais devastadora. Conheci-o,
ou melhor, detectei-o, muito tempo atrás, numa música do Taiguara, aliás,
excelente cantor e compositor dos anos 1960-80. Como divisá-lo em versos tão
belos? Como percebê-lo com olhos e ouvidos de fã tão ardoroso, quase extasiado?
Mas ele, o deus impessoal estava ali...
“Deus é bonito,
e a beleza é só uma sede
E a beleza não se aprende
E não importa onde nasceu
Eu vinha andando pela Rua
dos Ingleses
Vi uma flor nos limos verdes
Nos sorrimos e era Deus”
“Bobagem”,
diriam alguns, isso é apenas expressão poética inocente, linguagem figurada,
imaginação criativa. E assim esse deus ganha força e adeptos, conquistando
principalmente o coração dos intelectuais.
Como
o de Cristina, minha professora de Semântica num curso de pós-graduação, em
1992. Com mestrado e doutorado em Literatura e preparando-se para lecionar em
Washington, ela alfinetava, vez por sempre, a cultura judaico-cristã. Influenciada
pela sutil engenharia religiosa da Nova Era, gostava de mostrar o “efeito
deletério que essa cultura trouxera à Humanidade”. Como sabia que eu era membro
de uma igreja batista, parecia sentir um certo prazer em dizer isso, levantando
o sobrolho em minha direção.
Um
dia, criei coragem para refutar seus argumentos e apresentar-lhe os benefícios
que a cultura judaico-cristã legou ao mundo. Ficou surpresa. Perguntei-lhe se
acreditava em Deus. Disse que sim, mas de “outra maneira”. Não me surpreendi
quando me falou, num tom intelectualoidemente superior, de um “deus cósmico, um
deus energia” existente em cada ser humano. Depois fez uma miscelânea que
reunia o panteísmo da Ciência Cristã e o amorfo movimento da Nova Era, em que
pontificavam expressões como “Deus é tudo e tudo é Deus”, “Gaia” ou
“Mãe-Terra”. Para esse tipo de pessoa, acreditar num Deus Criador do Universo e
de Adão e Eva é algo muito simplório, coisa de mentes pouco evoluídas. O
curioso é que não sentem nenhum constrangimento em crer em gnomos, duendes,
fadas e outros seres da mesma espécie.
Depois
de apresentar um pouco das razões da minha fé, emprestei-lhe o livrete “Mais
que um Carpinteiro”, de Josh McDowell. No dia seguinte, ela mo devolveu com um
comentário lacônico: “Interessante!” Mais que interessante, digo eu. Josh era um
professor universitário ateu que tentava a todo custo desvalorizar a Bíblia e
humilhar os cristãos. Para ele Jesus era um mito que precisava desmascarar.
Desafiado por uma moça cristã evangélica, viajou para Israel. Seu objetivo era
fazer uma pesquisa séria e profunda, capaz de comprovar a sua tese. Depois de
muito esforço, bebeu do próprio “veneno”: descobriu que a Bíblia era verdadeira
e que Jesus era real. O resultado dessa luta inglória foi a sua conversão. Hoje
ele é um apologista cristão, autor de livros como “Evidências que Exigem um Veredicto”.
O
deus impessoal passeia perigosa e insidiosamente por todos os lugares e mentes
e usa todos os meios. É claro que não poderia deixar de se alojar na Internet,
terreno fertilíssimo para fixar suas garras, principalmente em mensagens bonitas,
fluidas, espiritualísticas e aparentemente edificantes. Para detectá-lo, é
preciso ter comunhão e intimidade com a Palavra e com o Deus Verdadeiro,
Criador, Transcendente, Pessoal, que se encarna, tem músculos e nervos, vira
gente, come, bebe, sente, ri, chora e, principalmente, ama. Só uma Pessoa como Ele
é capaz de derramar seu precioso sangue por mim e por você. Sem Ele, o que resta
é a vaziez de um misticismo anódino, ainda que quase sempre bem-intencionado.
Cuidado
com o deus impessoal!
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