quinta-feira, 10 de maio de 2012

A triste solução de Brasilino


 Neemias Félix

Brasilino da Silva era um pacato cidadão que conseguira, à custa de muitos anos de trabalho árduo, ascender à condição dos chamados “da classe média baixa”. Sua idade beirava os cinquenta, e a vida parecia correr, até certo ponto, tranquila e sem grandes novidades. Tinha mulher e dois filhos, casa própria modesta, um carrinho popular na garagem e, no fim do mês, saía para comer pizza com a família e os poucos amigos.

Sua vida começou a mudar quando teve o carro furtado num estacionamento próximo à igreja que frequentava. O Golzinho quadrado não era lá essas coisas, mas como era útil para a família e o seu trabalho de vendedor!

Quando soube do ocorrido, a princípio não se desesperou. Acreditava recuperar o carrinho tão querido. Se o Estado não conseguira garantir a segurança do seu carro, pelo menos, o traria de volta.

O pior, entretanto, estava para acontecer. Uma hora depois, Brasilino soube que o veículo tinha sido encontrado na rodovia BR-101, a uns 40 quilômetros da cidade. “Graças a Deus!”, exclamou. Mas o pior veio depois. Abandonado quase no meio da estrada pelos ladrões, o carro tinha sido abalroado por outro automóvel, o que deixou o Golzinho quadrado impossibilitado de rodar.

Dirigiu-se ao local e viu seu velho companheiro ser guinchado e levado para a cidade mais próxima. Começava ali o seu sofrimento. Quando foi retirar a queixa, soube que não era possível, porque o sistema não podia fazer isso com a rapidez que ele esperava. No outro dia, na cidade onde o carro estava guardado, muitas idas e vindas, burocracia, taxas e mais taxas a pagar, além de mais um pagamento de guincho para o carro ser trazido para a sua cidade de origem.

Brasilino descobriu então outro ladrão mais sorrateiro e pérfido que aqueles que levaram o seu carro: o Estado. Sim, o Estado, com suas garras burocráticas, seus impostos e taxas absurdos e seus trâmites nebulosos, dignos de uma novela kafkiana.

“Sou um cidadão de bem, pagador de impostos, cumpridor de seus deveres e, enquanto os ladrões estão soltos, perco meu carro e ainda tenho de pagar tudo isso? Não é possível!”

Seus apelos, porém, eram vãos, e sua desdita apenas começara. Enquanto o carro era consertado, pegou uma moto emprestada de um amigo, mas ela também foi furtada, além de um relógio de estimação que pertencera a seu pai. Dias depois, sua esposa teve a bolsa roubada quando saía de uma loja e seu filho adolescente, sob a ameaça de um canivete, foi arrancado de um par tênis, com violência, por um pivete cheio da maconha que o Carlos Minc e o Fernando Henrique querem descriminar.

Nas idas e vindas à delegacia, ainda teve de engolir as “orientações” do delegado para não ser roubado e receber, de lambujem, uma cartilha detalhada sobre como se precaver contra assaltos, bala perdida e outras situações de perigo. Em vez de vítima, conseguiram fazê-lo sentir-se culpado de ter sido roubado! Percebeu que não tinha liberdade de ir aonde queria e usar as coisas que desejava. Os ladrões é que determinavam a sua maneira de estar, agir, andar e vestir.

Sentiu-se ameaçado e começou a ter medo de tudo. Uma paranóia! Pôs grades nas janelas e trancas nas portas. Pensou até em instalar um sistema de alarme residencial, mas não tinha dinheiro para tanto. Passou a não sair de casa, mas depois de duas semanas enclausurado, no caminho para o supermercado, teve de enfiar o nariz no chão, enquanto duas balas perdidas quase achavam sua cabeça.

Brasilino se enfurnou mais e mais em casa com a família. Já quase meio louco, começou a matutar. Como se proteger da violência? Por que a polícia não prendia os que roubaram seu carro, a bolsa de sua mulher, o tênis de seu filho? E, quando prendia, por que os bandidos não ficavam presos e voltavam a delinquir?

Não dormiu naquela noite. Pensou no absurdo de estar preso dentro da própria casa enquanto os bandidos andavam soltos e zombavam da lei e das autoridades. Onde estava o poder? Onde estava a segurança? De manhã sua mulher viu nos olhos de Brasilino um brilho estranho. Era o olhar de um homem cuja razão parecia esvair-se totalmente.

Enquanto os filhos dormiam, pegou um revólver de brinquedo que havia escondido no fundo do velho armário do porão. Era uma “arma” que teimara em ficar guardada. Talvez em protesto contra as campanhas de desarmamento de cidadãos de bem. Como aqueles que ficaram inermes e vendidos na Alemanha de Hitler. Saiu à rua sorrateiramente. Andou muito, muito. Numa esquina, quando a velha senhora voltava da padaria, Brasilino apontou-lhe a pistola, arrancou-lhe a bolsa e saiu em desabalada carreira pelos becos sujos e fedorentos do bairro, enquanto ouvia os gritos de “pega ladrão!”. No fim da rua, o começo do morro.  Subiu resfolegante a acidentada ladeira. Apesar do esforço e quase no fim da subida escarpada, já não sentia medo. Era um morro em que a polícia jamais entrara. Os bandidos, seus novos amigos, o protegeram.

Finalmente encontrara um lugar seguro.






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