Brasilino
da Silva era um pacato cidadão que conseguira, à custa de muitos anos de
trabalho árduo, ascender à condição dos chamados “da classe média baixa”. Sua
idade beirava os cinquenta, e a vida parecia correr, até certo ponto, tranquila
e sem grandes novidades. Tinha mulher e dois filhos, casa própria modesta, um
carrinho popular na garagem e, no fim do mês, saía para comer pizza com a família e os poucos amigos.
Sua
vida começou a mudar quando teve o carro furtado num estacionamento próximo à
igreja que frequentava. O Golzinho quadrado não era lá essas coisas, mas como
era útil para a família e o seu trabalho de vendedor!
Quando
soube do ocorrido, a princípio não se desesperou. Acreditava recuperar o carrinho tão querido. Se o Estado não conseguira garantir a segurança do seu carro, pelo
menos, o traria de volta.
O
pior, entretanto, estava para acontecer. Uma hora depois, Brasilino soube que o
veículo tinha sido encontrado na rodovia BR-101, a uns 40 quilômetros da
cidade. “Graças a Deus!”, exclamou. Mas o pior veio depois. Abandonado quase no
meio da estrada pelos ladrões, o carro tinha sido abalroado por outro
automóvel, o que deixou o Golzinho quadrado impossibilitado de rodar.
Dirigiu-se
ao local e viu seu velho companheiro ser guinchado e levado para a cidade mais
próxima. Começava ali o seu sofrimento. Quando foi retirar a queixa, soube que
não era possível, porque o sistema não podia fazer isso com a rapidez que ele
esperava. No outro dia, na cidade onde o carro estava guardado, muitas idas e
vindas, burocracia, taxas e mais taxas a pagar, além de mais um pagamento de
guincho para o carro ser trazido para a sua cidade de origem.
Brasilino
descobriu então outro ladrão mais sorrateiro e pérfido que aqueles que levaram
o seu carro: o Estado. Sim, o Estado, com suas garras burocráticas, seus
impostos e taxas absurdos e seus trâmites nebulosos, dignos de uma novela
kafkiana.
“Sou
um cidadão de bem, pagador de impostos, cumpridor de seus deveres e, enquanto
os ladrões estão soltos, perco meu carro e ainda tenho de pagar tudo isso? Não
é possível!”
Seus
apelos, porém, eram vãos, e sua desdita apenas começara. Enquanto o carro era
consertado, pegou uma moto emprestada de um amigo, mas ela também foi furtada,
além de um relógio de estimação que pertencera a seu pai. Dias depois, sua
esposa teve a bolsa roubada quando saía de uma loja e seu filho adolescente,
sob a ameaça de um canivete, foi arrancado de um par tênis, com violência, por
um pivete cheio da maconha que o Carlos Minc e o Fernando Henrique querem
descriminar.
Nas
idas e vindas à delegacia, ainda teve de engolir as “orientações” do delegado
para não ser roubado e receber, de lambujem, uma cartilha detalhada sobre como
se precaver contra assaltos, bala perdida e outras situações de perigo. Em vez
de vítima, conseguiram fazê-lo sentir-se culpado de ter sido roubado! Percebeu
que não tinha liberdade de ir aonde queria e usar as coisas que desejava. Os
ladrões é que determinavam a sua maneira de estar, agir, andar e vestir.
Sentiu-se
ameaçado e começou a ter medo de tudo. Uma paranóia! Pôs grades nas janelas e
trancas nas portas. Pensou até em instalar um sistema de alarme residencial,
mas não tinha dinheiro para tanto. Passou a não sair de casa, mas depois de
duas semanas enclausurado, no caminho para o supermercado, teve de enfiar o
nariz no chão, enquanto duas balas perdidas quase achavam sua cabeça.
Brasilino
se enfurnou mais e mais em casa com a família. Já quase meio louco, começou a
matutar. Como se proteger da violência? Por que a polícia não prendia os que
roubaram seu carro, a bolsa de sua mulher, o tênis de seu filho? E, quando
prendia, por que os bandidos não ficavam presos e voltavam a delinquir?
Não
dormiu naquela noite. Pensou no absurdo de estar preso dentro da própria casa
enquanto os bandidos andavam soltos e zombavam da lei e das autoridades. Onde
estava o poder? Onde estava a segurança? De manhã sua mulher viu nos olhos de
Brasilino um brilho estranho. Era o olhar de um homem cuja razão parecia
esvair-se totalmente.
Enquanto
os filhos dormiam, pegou um revólver de brinquedo que havia escondido no fundo
do velho armário do porão. Era uma “arma” que teimara em ficar guardada. Talvez
em protesto contra as campanhas de desarmamento de cidadãos de bem. Como
aqueles que ficaram inermes e vendidos na Alemanha de Hitler. Saiu à rua sorrateiramente.
Andou muito, muito. Numa esquina, quando a velha senhora voltava da padaria,
Brasilino apontou-lhe a pistola, arrancou-lhe a bolsa e saiu em desabalada
carreira pelos becos sujos e fedorentos do bairro, enquanto ouvia os gritos de
“pega ladrão!”. No fim da rua, o começo do morro. Subiu resfolegante a acidentada ladeira. Apesar
do esforço e quase no fim da subida escarpada, já não sentia medo. Era um morro
em que a polícia jamais entrara. Os bandidos, seus novos amigos, o protegeram.
Finalmente
encontrara um lugar seguro.
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