Neemias Félix
Se há uma mercadoria faltando na pouca estocagem das
lojas da nossa consciência, esta é a vergonha na cara.
Não foi por acaso que li, dias atrás, o trabalho de
um famoso psicólogo da Unicamp sobre a importância do sentimento da vergonha.
Nele o professor dizia que o assunto era pouco pesquisado nas universidades,
especialmente no que se refere à sua relevância como regulador moral. É claro
que o assunto era tratado com todo o rigor científico, destacando a distinção
entre culpa e vergonha, com base nos postulados da tal ciência da alma.
Como não sou psicólogo (às vezes dou graças a Deus
não ser psicólogo nem teólogo, pois fico mais à vontade para expor o que penso,
além de não correr o risco de ferir códigos e cânones), vou no popular, como dizia o personagem de um programa humorístico:
Está faltando vergonha na cara deste mundo, meu Deus do céu!
Não sei se me engano, se sim, me corrijam. Parece
que, no Brasil, a coisa começou a piorar no período da ditadura. Como estávamos
sob um regime que detestávamos, ninguém queria ser podado, tolhido e cerceado,
mais do que já era pelo regime militar. Queríamos liberdade, ora essa, não
bastava ter aqueles verdinhos
determinando tudo o que devíamos pensar, falar e dizer? Bolas!
Então parecia que todos nós éramos esquerdistas,
marxistas e outros istas. Todos
contra o governo! Fora com esses miquinhos verdes que querem nos ver alienados! Fora o colonialismo e imperialismo
americanos! Participar de uma greve era bom e valia a pena, principalmente pela
oportunidade de levar pelo menos uns safanões, umas cacetadas e, quem sabe, até
a glória efêmera de um pau-de-arara com uns jatos de água nas narinas
resfolegantes e indignadas.
E daí, as consequências: Não vamos cantar o Hino Nacional,
gente. Isso é coisa de ditadura. Eles querem nos encolher, nos enquadrar, nos
amoldar. Em casa e na escola, cuidado com o que você vai dizer ao menino. Você
pode traumatizar o bichinho. Foi a
época do trauma, que a gente não
sabia exatamente o que era, mas a palavra estava na moda. Agregue-se a isso a
chegada da revolução sexual, com Woodstock todinha transando na grama, gente
barbada e descabelada fumando maconha, sem tomar banho, livre, livre, Jimmy
Hendrix tocando e Janis Joplin esganiçando e rouca. Sexo, drogas e rock-and-roll! Fora os yuppies, vivam os hippies!
Acontece que a ditadura terminou, a desculpa se
esvaziou, os costumes relaxaram a cada dia, as leis foram ficando cada vez mais
frouxas e permissivas, o seu cumprimento pior ainda, e o raríssimo estoque da
vergonha acabou. A reboque, um resquício de psicologização de tudo, do botequim
ao Congresso, do lar do pobre ao púlpito dos templos e religiões.
Depois da tempestade veio o limite, palavrinha que também virou moda. Não deixa de ser um
alento, mas é preciso mais. Precisamos tomar vergonha na cara, colocar as
coisas nos seus devidos lugares e os verdadeiros valores na velha escala, uma
piramidezinha que ilustrava os livros de Moral e Cívica, que também sumiram das
escolas. É que eles lembravam a ditadura que tanto queríamos apagar da memória.
Ainda assim, lembro-me bem da página e
da pirâmide: no topo, os valores espirituais; depois os morais, os sociais e
assim por diante. Lá embaixo, os valores materiais. Será que estou ficando
velho e quadrado?
De vez em quando, na sala de aula, rompendo talvez
todos os paradigmas da pós-modernidade, eu propunha aos meus alunos o seguinte
exercício, para quando eles estivessem negligenciando uma obrigação moral,
mesmo a omissão menos vergonhosa, como deixar de fazer os deveres de casa.
“Aproxime-se do espelho”, dizia eu, “olhe bem para o seu rosto e diga bem alto:
toma vergonha na cara, rapaz!” Resgatada a vergonha, eu os aconselhava a lutar,
com a ajuda de Deus e todas as forças, para realizar o que estavam devendo.
Andamos muito lenientes e permissivos com nossos
filhos e nossos alunos. Vamos aceitando passivamente os costumes que a
televisão nos impõe. Dá vontade de chorar ver o descalabro da proliferação do
divórcio fácil (ainda que eu o aceite em certos casos extremos); pais que não
exercem autoridade sobre filhos ainda crianças e adolescentes; a falta de
respeito com e da polícia e outras autoridades; o império da impunidade; professores
apanhando em sala de aula; pais com filhos no colo assistindo a passeatas do
“orgulho” gay e dando o maior apoio; o assalto, à mão armada pelo voto, dos
políticos; pessoas recebendo o bolsa-família sem nenhuma contrapartida de trabalho
ou, pelo menos, da aprovação dos filhos na escola; decisões (ou a falta delas)
das doutas e emblemáticas figuras do STF; a preocupação dos direitos humanos
mais com o estuprador e o bárbaro assassino do que com a vítima e sua família;
a baixaria na televisão; a futilidade do BBB; os megasshows religiosos, a superstição e a tunga do dinheiro dos
incautos; além de outras centenas de absurdos.
Permitam-me, para encerrar, um testemunho pessoal.
Corria o ano de 1985. Eu estava na faixa dos trinta anos, já era casado, tinha
dois filhos pequenos. Não havia assimilado ainda os valores que tenho hoje como
cristão e fazia um curso de especialização numa cidade vizinha. Na faculdade
fui assediado durante uma semana inteira por uma mulher casada em vias de
separar-se do marido. Felizmente resisti bravamente à tentação de uma aventura
fácil e efêmera. Não resta dúvida de que também pensei em Deus naqueles
momentos cruciais, mas sabem o que mais me ajudou? A vergonha. Pensei na
vergonha que seria a minha mulher saber daquela traição; na vergonha de ver
meus pais, que tanto me ensinaram a fidelidade e a hombridade, decepcionados
comigo; na vergonha de ver meus filhos pequenos se envergonhando do pai que
tinham. Por fim, pensei na vergonha que sentiria ao fitar, no próprio espelho,
a face de um marido traidor e na tragédia que certamente se abateria sobre a
minha família. Foi isso que me salvou: a vergonha na cara.
Precisamos resgatar a vergonha na cara nesse
paisinho permissivo e sem-vergonha!
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