Neemias Félix
Um lamentável engano encontradiço no meio cristão é achar que o fato de Deus usar certas pessoas e certas circunstâncias para seus propósitos significa que elas recebem a sua total aprovação. Essa ação seria semelhante à ideia contida no ditado popular “Deus escreve certo por linhas tortas”, sendo as mencionadas “linhas” o ser humano, por sua imperfeição.
Parece estar claro que Deus, na sua onipotência e soberania, usa quem quer, quando quer e como quer para atingir seus propósitos eternos. Essa idéia, aliás, pelo seu uso constante, ganhou fumos de axioma popular, mas, na verdade, está implícita em textos como estes da Bíblia: "Mas o nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz” (Sl 115:3); “Mas, ó homem, quem és tu que a Deus replicas? “Não veem que só eu sou Deus? Eu tiro a vida e dou-a, faço a ferida e saro-a, e ninguém escapa ao meu poder” (Dt 32.39).
Quanto a usar personagens nem sempre tão dignos para atingir os seus propósitos, a rigor, não deveria causar espécie, pela condição da própria natureza humana, que é intrinsecamente má. Basta ler o que Paulo diz em Romanos 3.10 para se chegar à conclusão óbvia de que não é possível Deus usar alguém absolutamente íntegro: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer”.
Ainda assim, se é possível estabelecer uma escala meio farisaica da indignidade, poderíamos listar vários tipos de pessoa usados por Deus através das páginas da Bíblia:
Entre os simplesmente não-dignos, poderíamos citar, nas primeiras aparições, Abrãao e Isaque, pela sua pouca fé e suas mentiras; Jacó, pelo seu alto poder de enganar e conspirar; Moisés, pela gagueira, baixa autoestima, covardia e pouco espírito empreendedor; Gideão, pelo medo; Salomão, pela mulherenguice; Pedro, pela inconstância, desequilíbrio emocional e impulsividade; Tomé, pelo ceticismo.
Os reis Artaxerxes, Ciro e Nabucodonosor figurariam no grupo dos menos dignos entre os gentios usados por Deus. Os dois primeiros foram importantes para o retorno do povo judeu a Israel e a reconstrução de Jerusalém. O último chegou a ser chamado por Deus de “meu servo”, já que foi usado na ação pedagógica do Senhor quando aquele rei dominou a nação judaica.
Na relação dos mais indignos, ínfimos e até infames, impossível esquecer a prostituta Raabe. É ela quem esconde os espias enviados por Josué e ainda mente para o rei de Jericó, despistando-o, fazendo parte de um tremendo complô santo, além de atuar como quinta-coluna na derrubada da cidade. Quem se der ao trabalho de ler a genealogia de Jesus vai ver que essa prostituta figura entre os ancestrais do próprio Filho de Deus. É ela a mãe do rei Boaz, bisavô de Davi. Além disso, figura também na tão propalada galeria dos heróis da fé, mencionada no capítulo 11 da Carta aos Hebreus.
A última subcategoria talvez seja a dos, quem sabe, ignóbeis. Desçamos, portanto, aos irracionais. Deus chega ao absurdo de usar uma jumenta falante para chamar a atenção do profeta Balaão para a presença de um anjo que estava à sua frente e ele não conseguia ver. Esse episódio inusitado ganhou, na cultura teológica popular, uma conotação jocosa: “Se Deus usa até uma jumenta para atingir seus objetivos, pode usar qualquer um”, costuma-se dizer em tom de brincadeira.
Apesar de todas essas concessões do Criador listadas acima, é necessário refletir seriamente sobre esta verdade: o usar de Deus nada tem a ver com a Sua aprovação.
Quando Davi intentou construir um templo para Iavé, Ele não gostou da idéia e expressou isso claramente. Quando o povo de Israel pediu para ser governado por um rei, como as nações à sua volta, Deus desaconselhou, relacionando, entre outras coisas, o gasto que um reinado poderia acarretar. Influenciadora que sempre foi da cultura mundial, se a cultura judaica tivesse seguido o conselho de Deus, talvez hoje os ingleses evitassem os altos gastos com a sua monarquia, nós brasileiros não tivéssemos a ilha da fantasia, que é Brasília, e as religiões, principalmente as cristãs, a exemplo da igreja primitiva, talvez não adotassem uma hierarquia paganizada e não erigissem seus templos suntuosos com suas estruturas administrativas pesadas e dispendiosas, isso sem falar nos seus megaeventos e megasshows.
Não é por usar homens pusilânimes que Deus aprova a fraqueza e a falta de fé; não é por usar um mulherengo que Deus aprova o adultério; não é por usar uma prostituta que Deus aprova a prostituição. Não é por usar o período superconsumista do Natal e até o mítico e simpático impostor Papai Noel, que trazem um pouco de sensibilidade e solidariedade aos homens, que Deus concorda com o consumismo e a superstição.
Em Filipenses 1.18, Paulo parece ser condescendente com os que pregavam o evangelho por inveja: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda”. O contexto (sua prisão), entretanto, não autoriza a regra de se pregar um evangelho do vale-tudo ou “outro evangelho”. Sem concordar com a situação, Paulo apenas se alegra porque Cristo estava sendo anunciado, e ainda assim num mundo em que o nome de Jesus era desconhecido. Não é o caso dos dias atuais, em que o testemunho de vida dos cristãos vale mais do que o simples anúncio do Seu nome.
Antes que eu me esqueça, não é por usar uma jumenta que Deus aprova a irracionalidade, a teimosia e a burrice. No salmo 32.7-8, Ele diz: “Não sejais como o cavalo ou a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio...”, e, em Mateus 7.22, Jesus adverte duramente aqueles que realizavam obras espetaculares: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? Então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”.
Toda obra que Deus quiser realizar Ele realizará. Seu propósito é eterno e imutável, Seu nome é poderoso. No Seu tempo, Ele faz o que Lhe apraz, independentemente de quem usa e, às vezes, até apesar de nós. Costumo dizer que, se simplesmente não atrapalharmos, grandes coisas acontecerão, porque “Seus propósitos nunca serão frustrados” (Jó 42.2). A boa semente que cai em solo fértil certamente germinará, quer lançada pela mão de um estúpido empregado, quer pelas mãos hábeis de um cuidadoso agricultor. O trabalhador, entretanto, com suas intenções e motivações de coração, será julgado. Surpreendentemente, muitos serão os que receberão a terrível sentença: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41).
Deus continua aceitando homens e mulheres imperfeitos, porém com corações humildes e moldáveis; gente, portanto, que quer crescer no conhecimento dEle e deixar-se aperfeiçoar. Fazer apologia à estultice e insensatez deslustra a imagem de um Deus absolutamente santo e perfeito no cumprimento de Sua obra tão sublime.
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