segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Escassez e excesso de informação: problemas..


.Neemias Félix

Quinze anos atrás, em sala de aula, eu vaticinava, ante olhares incrédulos e adolescentes, aquilo que viria a ser um problema consequente de uma solução: o excesso de informação (desculpem o eco). E mostrava o contraste entre a minha infância de garoto pobre em Rio do Norte, divisa de Linhares com Aracruz, e a dos meus alunos da chamada “década perdida” de 1990.

Era muita curiosidade para tão poucos livros. Lembro-me de apenas de três, ou, para ser exato, dois e meio: uma Bíblia, um velho dicionário editado em 1925 e a metade de um alfarrábio amarelado chamado “O Mestre dos Mestres”. Aliás, foi neste último que aprendi, aos oito anos, que “dó” era substantivo masculino e que havia diferença entre “em vez de” e “ao invés de”, entre “de encontro a” e “ao encontro de”.

Revistas? Só um ensebado gibi do Pato Donald, que eu chamava de Pato “Donáldi”, para gáudio do meu irmão Maninho, que se pocava de rir. Ora, como é que eu ia adivinhar que a tal pronúncia era inglesa? Televisão não existia por ali. Aliás, a primeira só deveria chegar a Linhares lá pela metade da década de 1960 para estabelecer duas classes de telespectadores: a dos “televidentes”, que compravam o televisor; e a dos “televizinhos”, formada pelos vizinhos que assistiam da varanda.

Um parágrafo à parte para o rádio do seu Zé Mamede, o único nas redondezas do Posto Fiscal, que nos ligava ao mundo pelas ondas hertzianas. À noitinha, todos os ouvidos ligados na novela “Jerônimo, o Herói do Sertão”; um pouco mais tarde, os mais velhos corriam para “A Voz do Brasil”, atraídos pela ópera “O Guarani”, que abria o programa.

Dias atrás, na internet, li uma entrevista do famoso escritor, filósofo e semiólogo Umberto Eco alertando para o problema do excesso de informação. Entre outras coisas, ele dizia:
                
                Esse é um de nossos problemas contemporâneos.
                A abundância de informação irrelevante, a dificuldade
                em selecioná-la e a perda de memória do passado –
                e não digo nem sequer da memória histórica.
                A memória é nossa identidade, nossa alma.
                Se você perde a memória hoje, já não existe alma;
                você é um animal. 

Dei uma risadinha. Não é preciso ser famoso para saber que já temos, há muito tempo, um problema que é exatamente como processar tanta informação e torná-la significativa, relevante. Além disso, sabe-se que a nossa memória é seletiva – sedimenta e registra o que marca, tanto positiva quanto negativamente.

Embora seja verdade que ao envelhecer vamos perdendo aos poucos a nossa capacidade de reter informações, também é verdade que não podemos processar e reter esse mar de informações que temos nos dias atuais.

Isso, porém, é coisa que até um simples professor já descobrira há muitas, muitas luas atrás.


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