.Neemias Félix
Quinze anos atrás, em sala de aula, eu vaticinava, ante
olhares incrédulos e adolescentes, aquilo que viria a ser um problema
consequente de uma solução: o excesso de informação (desculpem o eco). E mostrava
o contraste entre a minha infância de garoto pobre em Rio do Norte, divisa de
Linhares com Aracruz, e a dos meus alunos da chamada “década perdida” de 1990.
Era muita curiosidade para tão poucos livros. Lembro-me de
apenas de três, ou, para ser exato, dois e meio: uma Bíblia, um velho
dicionário editado em 1925 e a metade de um alfarrábio amarelado chamado “O
Mestre dos Mestres”. Aliás, foi neste último que aprendi, aos oito anos, que
“dó” era substantivo masculino e que havia diferença entre “em vez de” e “ao
invés de”, entre “de encontro a” e “ao encontro de”.
Revistas? Só um ensebado gibi do Pato Donald, que eu
chamava de Pato “Donáldi”, para gáudio do meu irmão Maninho, que se pocava de
rir. Ora, como é que eu ia adivinhar que a tal pronúncia era inglesa? Televisão
não existia por ali. Aliás, a primeira só deveria chegar a Linhares lá pela
metade da década de 1960 para estabelecer duas classes de telespectadores: a
dos “televidentes”, que compravam o televisor; e a dos “televizinhos”, formada pelos
vizinhos que assistiam da varanda.
Um parágrafo à parte para o rádio do seu Zé Mamede, o único
nas redondezas do Posto Fiscal, que nos ligava ao mundo pelas ondas hertzianas.
À noitinha, todos os ouvidos ligados na novela “Jerônimo, o Herói do Sertão”;
um pouco mais tarde, os mais velhos corriam para “A Voz do Brasil”, atraídos
pela ópera “O Guarani”, que abria o programa.
Dias atrás, na internet, li uma entrevista do famoso
escritor, filósofo e semiólogo Umberto Eco alertando para o problema do excesso
de informação. Entre outras coisas, ele dizia:
Esse é um
de nossos problemas contemporâneos.
A
abundância de informação irrelevante, a dificuldade
em
selecioná-la e a perda de memória do passado –
e não
digo nem sequer da memória histórica.
A memória é nossa identidade, nossa alma.
Se
você perde a memória hoje, já não existe alma;
você
é um animal.
Dei uma risadinha. Não é preciso ser famoso para saber que
já temos, há muito tempo, um problema que é exatamente como processar tanta
informação e torná-la significativa, relevante. Além disso, sabe-se que a nossa
memória é seletiva – sedimenta e registra o que marca, tanto positiva quanto
negativamente.
Embora seja verdade que ao envelhecer vamos perdendo aos
poucos a nossa capacidade de reter informações, também é verdade que não
podemos processar e reter esse mar de informações que temos nos dias atuais.
Isso, porém, é coisa que até um simples professor já
descobrira há muitas, muitas luas atrás.
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