Neemias Félix
Uma história contada pelo amigo José Geraldo Fanthin, colega de unha e carne na adolescência e hoje juiz de direito na Serra, ilustra bem como as palavras podem causar confusão quando não prestamos atenção a quem fala ou quando estamos absortos em nossos próprios pensamentos. A necessidade de se ouvir os outros é tão séria que em algumas faculdades dos Estados Unidos já existe até cadeira com a disciplina, pasmemos todos, “como ouvir”.
Ouvimos muito mal. Diria até que não sabemos ou não queremos ouvir em muitas situações que impropriamente chamamos de “diálogo”. Quem duvida disso deve passar a observar se estava realmente ouvindo a argumentação de um seu oponente, numa discussão ou debate mais acalorado. Nessas ocasiões, frequentemente estamos ouvindo mais as nossas próprias ideias e pensamentos, tramando intimamente a melhor forma de refutar os argumentos do nosso interlocutor do que realmente escutando com interesse o seu arrazoado.
A história desse meu amigo é muito simples. Criança ainda, estudava ele no seminário de Rio Bananal. O diretor, um padre preocupado com a qualidade da alimentação dos internos, aterrorizava a italianada com a constante prescrição de frutas e verduras às refeições.
Certa ocasião, o padre insistiu para que ele comesse uma enorme taça de salada de frutas. O garoto, como sempre fazia, empurrava a torrezinha colorida para o lado com certo asco.
-- Come, Fanthin! Pelo menos um pouco. Come o que você conseguir.
-- Não consigo, seu padre.
Por fim, um último apelo do diretor, com uma boa dose de disfarçado autoritarismo, tão comum à época:
-- Vou deixá-lo aqui sozinho no refeitório. Em quinze minutos, eu volto para ver o que você comeu. Pode ter certeza de que você não vai morer, meu rapaz -- diz sublinhando tanto quanto possível um erre mais que alveolar!
Quinze minutos depois, volta o diretor, para cobrar a tarefa prescrita. Da porta ele percebe que a taça está pelo meio. Ainda assim, comemora a vitória parcial com a pergunta carregada de sotaque italiano:
-- Moreu, Fanthin?
Transido de medo e, por isso mesmo, entendendo a frase como “comeu, Fanthin?”, meu amigo responde:
-- Só a metade, seu padre!
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